Naquele dia, acordaram diferentes. Era um dia diferente. Era dia de luta.
Alguma alimentação. Jornais em busca das últimas notícias. Preparam-se para a batalha. Dos armários saem as armas. Das gavetas, os uniformes. Analisam o dia, o clima. Não está sol, mas também não é dia de chuva. É dia de luta.
Encontram-se nos bares. Nos ônibus, nos estacionamentos, no metrô. O olhar brilha ao deparar com um igual, trajando as mesmas cores. Mãos espalmam-se em confraternização, como num rito de fé. Abraços calorosos como quem encontra um irmão. E é isso mesmo. São irmãos de fé. “Vamos à luta”, pensam. “Venceremos”.
A guerra é santa. O que está em jogo é a paixão. As armas e os uniformes têm três cores. São bandeiras, são camisas, são faixas, são sinalizadores. É o pó-de-arroz.
O que se viu no Maracanã, no dia 20 de abril de 2008, foi mais que uma festa. Foi um ato de amor a um clube. Foi uma celebração de uma torcida cada vez mais consciente de que é mais bela que todas as outras, que é mais vibrante que todas as outras e que é a mais criativa de todas.
Antes do jogo, os bares no entorno do estádio estavam apinhados. Tricolores em superioridade, seja em empolgação, seja em número, seja em variedade de canções. Não há como rivalizar. A descolorida torcida adversária cantava o indefectível “ninguém cala”, mas era invariavelmente calada pelo povo das Laranjeiras.
Dentro do estádio, tensão e expectativa, sim, mas empolgação em primeiro lugar. Sobem bandeirões, descem camisões, desfilam bandeiras de todos os tamanhos. A torcida do Fluminense mostrando que viera para vencer. Vencer o duelo das arquibancadas para contagiar os jogadores em campo para buscar a classificação.
A entrada em campo do time do Fluminense deveria estar catalogada entre as atrações turísticas da Cidade Maravilhosa nos guias da Riotur. O talco misturado às bandeiras, balões, faixas de mão e demais adereços, provoca um espetáculo de cores e alegria, que por vezes dá vontade de estar lá do outro lado, na outra torcida, só pra ver melhor.
Começa o jogo e continua o show. Torcida do Flu em maior número e em maior garra. “Vamos Fluzão, Vamos Ganhar”. Do outro lado “e ninguém cala...”, calado logo em seguida. “Fluminense eterno amor” do lado do Flu. “E ninguém cala” do outro lado. Calado mais uma vez.
E os Tricolores mandavam “O show está começando”, “Meu coração acelera”, “Eu não sou Botafogo”, “Sou Fluminense até morrer”. Do outro lado... “e ninguém cala...”. Calado.
O time jogava mal mas a torcida dava um verdadeiro espetáculo. Pênalti para o Flu. Vibram os guerreiros. Washington perde. Mesmo assim a canção de incentivo para o Coração Valente ecoa no Maracanã.
Começa o segundo tempo e a torcida inicia o “Aquarela Tricolor”. O time continua mal em campo. O “Aquarela” torna-se mais alto. O time erra passes. Mais alto e ainda mais alto. Parecia que todo o Rio de Janeiro estava cantando a melodia de Ary Barroso com o refrão “Fluzão, Fluzão”. O time do Fluminense recuperava a posse de bola e o Aquarela vinha ainda mais alto, mas nossos jogadores rifavam a bola com chutões pra frente. O Aquarela da torcida ecoou por toda a primeira metade do segundo tempo. A torcida do Botafogo já não tentava brigar. Estava calada.
O resto da história, todos já sabem. Ficamos com um jogador a mais, mas sofremos o gol no final do jogo. O time não esteve à altura de sua torcida.
No entanto, você, Tricolor, que esteve no Maracanã no dia 20 de abril pode manter sua cabeça erguida. Você foi, é e sempre será um vencedor.
A semana inteira fiquei esperando
Pra te ver jogando
Pra te ver ganhando
Quando a gente ama
Canta o jogo inteiro
Pra te ver ganhar, te ver ganhar, te ver ganhar
Flu das Laranjeiras
Meu amor primeiro
Meu amor sincero
Tricolor eterno
Digo ao mundo inteiro
Meu Fluzão guerreiro
Sempre vou te amar