Observar outros esportes pode ser muito educativo para atletas e dirigentes do futebol.
Torcida Tricolor,
É inegável que a semana foi extremamente interessante para o Tricolor. Renato Gaúcho confirma sua sina de quebrador de tabus e montou um time de forma a vencer os bambis paulistas no Morumbi, o que não acontecia a mais de duas décadas. Mexeu no time e venceu bem um Goiás vice-lider porém desfalcado. Há que se destacar a subida de produção de Thiago Neves, cada vez mais produtivo e suportando a responsabilidade de criar as jogadas de ataque do time, e as atuações de Somália, que vem se apresentando como um centro-avante melhor de que a maior parte dos torcedores poderia supor.
Mas em tempos de Pan-americano, essa avalanche de esportes ditos amadores seduz e impressiona. É quase impossível ficar alheio a tudo o que vem acontecendo, vibrar com cada medalha conquistada e entender um pouco da história de cada atleta e de como, em um país como o Brasil, ele conseguiu alcançar resultados tão expressivos.
Alguém já disse que o Brasil não é um país para amadores observando nossa economia. Porém, no esporte mostramos que se trata de uma verdade para toda a sociedade. Nossos atletas “amadores” são expostos a um calvário impressionante. O outro lado dessa moeda é que quando conquistam algo, mesmo que seja uma medalha de bronze, esta toma uma dimensão gigantesca, assume um valor incomensurável.
Neste ambiente de vitória sobre dificuldades sem fim, reina soberano o vôlei, esporte que há cerca de 30 anos começou a se organizar e se “profissionalizar” no país e tirou do basquete, que perdeu o bonde da história, o posto de segundo esporte nacional. Nossa atual seleção masculina, forjada nesse ambiente estruturado e bem-sucedido, coleciona vitórias e títulos de forma impressionante. Eis que no grande momento do esporte nacional, às vésperas de sua estréia no Pan-americano, Bernardinho, treinador respeitadíssimo no Brasil e no mundo, corta seu alterego na quadra, Ricardinho, recentemente eleito o melhor jogador do mundo.
Tricolores, passamos o primeiro semestre do ano pedindo a barração de Carlos Alberto, que tinha muita vontade mas produzia pouco. Porém, em nosso futebol do sul maravilha, perdemos completamente a noção de disciplina, liderança, espírito de equipe e outros conceitos tão importantes. Nossos dirigentes se acostumaram a tratar os jogadores como “popstars”, cheios de vontades e vícios. Os interesses na contratação ou manutenção de algum jogador no time extrapolam completamente os parâmetros técnicos. Somando esta postura ao êxodo de nossos melhores jogadores para o futebol europeu e asiático, temos como resultado um campeonato brasileiro disputadíssimo mas de baixo nível técnico, mesmo com alguns jogadores achando que são “a bala que matou Kennedy”.
Não sei o que aconteceu nos bastidores do corte de Ricardinho. Mas todos sabemos que de burro Bernardinho não tem nada. E sabemos também que uma decisão dessas não se toma sozinho. Alguma coisa muito séria aconteceu para motivar tal atitude. E o técnico assume os riscos de ter um time abalado para disputar uma medalha de importância menor a nível internacional mas de suma importância para o orgulho nacional.
Pena que atitudes como essa sejam cada vez mais raras nos times da paixão nacional. Se tivéssemos essa seriedade no futebol, provavelmente seríamos imbatíveis. Mais: se tivéssemos isso na política, seríamos um país mais justo, educado, saudável e limpo.
Em tempo: falta muito ainda, mas ver a mulambada segurando a lanterna do campeonato é um prazer a mais esse ano.
Saudações tricolores.
flufanatico@globo.com