Tudo começou num Flu X Juventude, de dois ou três anos atrás. Cerca de meia hora de peleja, já no segundo tempo, falta a nosso favor, bico da área dos caras. O glorioso Sídney preparava-se preguiçosamente para cobrar o tiro livre, enquanto o departamento médico tricolor saía do campo de jogo, após atender ao – se não me falha a memória - Marquinhos, que fora derrubado. Ou teria sido o Júnior César? Não importa – seis por meia dúzia, diferença alguma teria feito, afinal.
Pois bem, naquele exato instante, dirigi meu olhar para a mesa em frente, em busca de meu copo – eu estava acompanhando o jogo no famoso Bar do Romério, reduto tricolor localizado no bairro do Catarcione, aqui em Friburgo, via pay per view, enquanto mandava umas. Mal toquei o copo com os lábios, ouvi, com grande surpresa, exclamações extremamente exaltadas, dos demais tricolores que abarrotavam o recinto: “MINHA NOSSA SENHORA!!!”, “TIRA ESSA BOLA DAÍ, TIRA, TIRA!!!”, “NÃÃÃO!!!”.
Isso mesmo, senhoras e senhores – ainda atônito, eu tentava compreender como era possível, naquele intervalo mínimo de tempo, em que fiz apenas o movimento necessário para pegar um copo em cima de uma mesa, o nosso inesquecível Sídney ter conseguido bater a tal da falta, termos perdido a bola no ataque, e, ainda por cima, o Juventude ter conseguido parar na cara do nosso gol, num lance perigosíssimo! Quatro segundos, minha gente. QUATRO SEGUNDOS. Era impossível.
Olhei para um lado, depois para o outro – estava tudo aparentemente normal, normalíssimo, no boteco. Ninguém parecia haver notado nada que fosse estranho, todos continuavam agindo normalmente, com os olhos fixos na TV, bebericando, comentando o lance que acabara de ocorrer, dirigindo impropérios ao juiz da partida. Mas eu continuava assustado, suando como um condenado à forca no momento da execução, com a nítida sensação de que havia, sim, alguma coisa errada, muito errada, por ali. Alguém ou alguma coisa me havia roubado uns dois minutos! A posse de bola era do Fluzão, com o nosso lateral ainda manquitolando, na direção da grande área adversária, pra se posicionar devidamente, e o Sídney era uma lesma! – ok, apenas dois, não. Talvez três. Isso, três minutos. Três intermináveis minutos passaram-se em quatro segundos, como era possível? O que diabos teria acontecido? A minha espinha dorsal parecia formada por cubos de gelo, e minha mente dava voltas.
Na época, ainda – e ingenuamente – considerando absurda qualquer hipótese de caráter esotérico, sobrenatural ou ufológico, cheguei mesmo a atribuir toda aquela sensação de desconforto à simplória ruindade do Sidney e também, quiçá, aos efeitos colaterais, sempre imprevisíveis, do consumo de doses generosas de um uísque irlandês porreta – Deus é grande, dia desses ainda encontro outra garrafa daquelas... qual era aquela marca, mesmo?
Porém, poucas semanas depois, distraído na internet, deparei-me com um site especializado nos ditos fenômenos inexplicáveis e, após conferir alguns dos sintomas listados numa das páginas, quedei-me petrificado, imóvel, embasbacado, sem querer realmente acreditar - a julgar pelo que constava ali, tudo indicava que eu havia sido abduzido por alienígenas! Sim, isso mesmo, senhoras e senhores... abduzido por alienígenas! Senão, vejamos: sensação de deslocamento no espaço-tempo, lapsos contínuos de memória, fortes dores de cabeça, estresse emocional, formigamentos nas mãos, taquicardia, alucinações leves, transpirações generalizadas, distúrbios durante o sono, vontade incontrolável de comer chocolate ao leite – tudo, absolutamente tudo batia.
Fiquei pilhadaço, extremamente preocupado, achando que minha vida iria tornar-se um inferno dali por diante, com homenzinhos de cor verde, cinza ou marrom, aporrinhando a cada instante, a cada esquina. Mas os meses seguintes, no entanto, transcorreram sem qualquer sobressalto daquela natureza – assistia aos jogos do Fluzão normalmente, in loco ou via PPV, e nada acontecia; tudo voltara, aparentemente, à mais absoluta tranqüilidade.
Pois, para minha estupefação, desespero e terror, episódio semelhante ocorreu novamente sábado passado, enquanto eu assistia a Flu X Paraná, na Mansão dos Sales, muito embora, desta feita, o lapso de tempo me tenha parecido ocorrer em menor escala. Num de nossos ataques pela esquerda, no bico da área adversária, um córner de mangas curtas a favor do Flu – sim, não pude deixar de observar que, ao que parece, esses fenômenos afinal obedecem a determinados padrões específicos.
No entanto, neste caso específico, transcorria ainda o primeiro tempo de jogo, e não o segundo, como da vez anterior: Tiuí derrubado, o departamento médico em campo, Juan preparando-se para efetuar a cobrança, e a bola estourando na nossa trave, dois segundos depois! Acreditem: num piscar de olhos, o maluco do Paraná estava frente ao Kléber, mandando um tirambaço que explodiu no travessão. DOIS SEGUNDOS DEPOIS. Não era possível, aquilo simplesmente não era fisicamente possível.
Virei-me na direção dos amigos com os quais assistia à partida, e todos permaneciam agindo de modo insuspeito – Beto enchia uma vez mais ambas as mãos com uma porção razoável de pipocas, enquanto Rosana elogiava, como de praxe, nosso sistema defensivo com palavras carinhosas. Lupe, por sua vez, sorvia outro gole de sua cerveja, olhos grudados na telinha, prestando uma atenção danada nos comentários do Raul Quadros. Tudo normal. Tudo desgraçadamente normal, enquanto eu, coitado de mim, me sentia muito mal e suava a borbotões. Déjà vu. Diante das evidências, não tive a menor dúvida – sim, foram aqueles fiadamãe, outra vez.
A outra hipótese, a de que JOGADORES PROFISSIONAIS POSSAM PERDER A POSSE DE BOLA COM TAMANHA FACILIDADE, NÃO SENDO CAPAZES SEQUER DE INTERCEPTAR O CONTRA-ATAQUE ADVERSÁRIO, DEIXANDO A ZAGA INTEIRAMENTE DESGUARNECIDA, SEM QUALQUER NOÇÃO DE MARCAÇÃO OU COBERTURA, PARECENDO UM VERDADEIRO BANDO EM CAMPO, TUDO ISSO EM POUCOS SEGUNDOS, é, a meu ver, absolutamente impensável. Inconcebível. Intolerável.
Abdução alienígena – a expressão por si só é assustadora, a idéia é aterrorizante. Já não sei o que pensar, já não sei o que fazer.
Aventei a hipótese de tentar acionar a FLUTURO (www.fluturo.org), nossa ONG favorita, pau-pra-toda-obra em se tratando de assuntos tricolores de todo tipo – mas processar quem? Como achar os malditos aliens? E, ainda pior, em que jurisdição? Complicado demais.
Voltei à internet e, nos últimos dias, sigo pesquisando o tema. Tenho recebido constantemente, de pessoas que se dizem entendidas do riscado, sugestões para procurar implantes – chips eletrônicos – espalhados pelo corpo, ou experimentar algum tipo de terapia regressiva, por via hipnótica, numa de tentar reavivar a memória supostamente bloqueada, em busca da verdade, mas, eu?, nem pensar!
Os tais chips eu posso até vir a considerar, mas com esses papos de regressão, tou fora. Vai que, numa dessas, exageram na dose, eu regrido demais da conta e, valha-me meu João de Deus, acabo deixando de ser tricolor? – não vou mesmo, mas de jeito maneira, arriscar jogar milhares e milhares de anos de evolução pelo ralo.
Mas peraí, peraí, só agora me dei conta: o Padre Quevedo! – será que valeria a pena, a essas alturas, pedir um help pro tal do Padre Quevedo, aquele suposto demolidor de mitos das noites de domingo?
Taí, acho que vou escrever uma cartinha pro Fantástico.
(Postado por marcos vinicius camargo dos santos, Setembro 14, 2010, 6:36 AM)