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Breve ensaio sobre a Reflexologia

Por Gustavo Valladares on Julho 20,2005

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Um mero ressalto num paralelepípedo mal assentado, ao lado de um bueiro sem tampa, fez com que o indivíduo, que atravessava calma e despreocupadamente a avenida, chutando uma pedrinha, tropeçasse feio e saísse catando cavaco, totalmente desequilibrado, estatelando-se em seguida de modo perigoso, no meio da via pública, próximo ao meio-fio, quase em frente ao coreto da pracinha, tudo em plena luz do dia.  Uma multidão de curiosos cercou-o rapidamente, enquanto outros, mais zelosos, tratavam de interromper o trânsito próximo.  Levantou-se rapidamente, embora com certa dificuldade em manter-se ereto.  Seus movimentos indicavam sentir certa dor.   Sujou alguns dos documentos que carregava, o que, no momento, parecia ser a sua maior preocupação. Ralou, em virtude da queda, ambos os joelhos, embora o do lado esquerdo estivesse em pior estado, sangrando ligeiramente – um curativo band-aid, mais um simples remendo de napa, na calça que usava, e estaria novo em folha,. Só um susto, enfim, à parte o prejuízo com a farmácia e com o alfaiate, não fosse também a expressão de acanhamento, a face ruborizada, resultado do compreensível sentimento de ignomínia que sentia, pelo suposto micaço que considerava ter cometido – entre os transeuntes que o cercavam, havia muitas moças e alguns conhecidos, e o rapaz, que parecia bem tímido, demonstrava realmente estar muito envergonhado. 

 

A aglomeração dissipou-se em poucos instantes, e as pessoas saíram dali conversando sobre o acidente, como é habitual nessas ocasiões, umas com as outras, lamentando, aqui e ali, a falta de sorte do rapaz. 

 

Um senhor calvo, que era médico, mostrava-se preocupado com a perna esquerda do acidentado, argumentando que ele deveria radiografar a região mais afetada pelo tombo – “As aparências enganam, pode ter havido torção ou fratura”, dizia.  E completou: “E a ferida corre sério risco de infecção, é preciso limpá-la e cuidar rapidamente de um curativo”.  Um elegante casal de pele bronzeada, logo ao lado, por sua vez, discutia o fato sob outros diferentes ângulos: “Jairo, você viu que absurdo?  O rapaz foi desviar-se do buraco e caiu. Ele deveria processar o município!”.  Jairo assentiu com a cabeça, como que concordando com o que Cecília, sua esposa, havia dito.  Porém, sua atenção estava algo distante: perscrutava, o olhar clínico, toda a estrutura do calçamento, sua relação para com o meio-fio. Considerou o bueiro mal localizado, os paralelepípedos pessimamente colocados.  Ela era advogada – ele, evidentemente, engenheiro civil.

 

Assim segue a existência entre os humanos, aqui na terceira rocha a partir do sol – cada pessoa possui o seu próprio mundinho particular, que é só seu e de mais ninguém.  Temos tendência a reagir aos fatos e raciocinarmos diante de suas causas e efeitos de acordo com nossa formação pessoal, familiar, intelectual, profissional, religiosa, política.  Nada mais natural que, diante de um acontecimento determinado, como, por exemplo, o tombo aqui narrado, um médico reaja prioritariamente sob a ótica da saúde, um engenheiro procure, antes de mais nada, interpretações dentro de sua área de atuação profissional, e um advogado já pense, ato reflexo, em sair processando o que aparecer pela frente, numa até de faturar um cascalhozinho, que, afinal, ninguém é de ferro. 

 

Um psicólogo viajaria com a idéia, talvez, de que algum possível trauma de infância pudesse ter causado a queda; um fisioterapeuta indicaria sessões intensivas de alongamentos; um sapateiro sugeriria, quem sabe, um solado que não escorregasse.  “Deve ter sido fraqueza”, poderia ter dito, certamente, um cozinheiro, quiçá um nutricionista.  Uma costureira, por sua vez, dificilmente conseguiria desviar seus olhos do pedaço de tecido rasgado que pendia na perna esquerda do infeliz, enquanto imaginava linhas, agulhas e pespontos, em como se daria o conserto da peça.

 

Pois trata-se a Reflexologia, meus amigos, presente no título deste artigo, de ramo da psicologia – ensina-me o Dr. Jayme Lima aqui ao lado – que buscava reduzir todos os fenômenos psíquicos a meras reações condicionadas, centrando seu estudo na investigação das respostas dos chamados reflexos inatos ou adquiridos, em relação aos estímulos do meio.  Não obstante seus conceitos fundamentais terem sido construídos à base de estudos com animais, houve grande influência da Reflexologia para o desenvolvimento posterior da psicologia científica, em particular do Behaviorismo (que vem do inglês behaviour, que significa comportamento).   Desta forma, estritamente sob a ótica da psicologia científica, compreende-se o modo de agir e de pensar do engenheiro, do cozinheiro, da costureira, do médico, do fisioterapeuta, do nutricionista, da advogada, do psicólogo, do sapateiro, ao reagirem ao acidente narrado acima – é puro behaviorismo, é pura reflexologia, minha gente!

 

Mas, ôpa, peraí, pára tudo – do que é que esse maluco tá falando, afinal?!

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Ora, nós, os torcedores de clubes de futebol, filhos de Deus que somos, também temos direito a uma coleção bacaninha desses tais reflexos inatos e adquiridos, que, queiramos ou não, exercem forte influência sobre o nosso comportamento de modo geral, eis que, inútil negar, acabamos reagindo, via de regra, a tudo e a todos, sob a lógica cega, surda, muda e parcialíssima de nossa paixão clubística – paixão esta inata em uns e adquirida em outros poucos, imagino cá com meus botões de galalite, tanto quanto os tais reflexos de que tratam as teorias psicanalíticas citadas. 

Enquanto torcedores, nossos hábitos, mesmo os mais triviais, são estritamente ligados a nosso clube de coração, a seus símbolos, a sua história, a suas cores. Adaptamos agenda e horários, muitas vezes relegando compromissos familiares e mesmo profissionais a segundo plano, somente para seguir batendo ponto em nossa romaria sagrada, idílica, eterna, em busca da santa Pátria do Sol Nascente, a nossa terra prometida pela FIFA. Se somos apresentados a algum desconhecido, em nossas relações de trabalho ou sociais, e o descobrimos tricolor, o sujeito em pouco tempo vira amigo nosso de infância, tamanha a cumplicidade de tantas e tantas memórias desportivas que se reconhecem mutuamente compartilhadas.  Jamais usamos, este é outro bom exemplo, combinações cromáticas, em nossas roupas, em nossos objetos, que lembrem as principais hostes inimigas.  Como usar uma escova de dentes rubro-negra, uma blusa listrada em preto-e-branco?  Incomoda, insulta - nem pensar.  Para não perder a resenha favorável, passamos horas zapeando, freneticamente, atrás daquele canal específico, em que os comentaristas, naquele dia, pareçam mais simpáticos a nossas causas de vida ou de morte.  A leitura diária dos jornais começa – e muitas vezes termina – pelo caderno de esportes, invariavelmente pelas notícias que mais nos interessam.  Se são boas as novas tricolores, ganhamos o dia; se ruins, praguejamos e seguimos a leitura por outros caminhos de letras,  a examinar, resignadamente, o caldeirão de nhenhenhéns habituais de nossas comediazinhas diárias de costumes, o cenho franzido, indisfarçavelmente amuados.  Atentados em Londres, queda nas bolsas, aprovação do referendo do desarmamento pra outubro próximo, crise do mensalão?  Depois o resto, primeiro o Fluzão. 

Ser humano que sou como toda a gente, naturalmente apresento – como todos vocês, como todos nós – respostas múltiplas diante das coisas da vida.  Reflexos múltiplos, enfim.  Mas certamente teria, a princípio, duas reações básicas, automáticas, ao acompanhar o tal acidente:  teria dificuldades, claro que sim, para conter uma forte crise de risos – o tombo deve ter sido engraçado, minha gente – e trataria, evidentemente, de checar a integridade física do sujeito, antes de mais nada.  Porém, e apesar de minha formação jurídica meia-boca, posso assegurar que sequer me passaria pela cabeça a idéia lá da doutora Cecília, a de sair caçando responsabilidades – atribuiria a queda ao simples azar a que, vez ou outra, todos estamos submetidos, vida que segue, afinal.  Mas o meu lado doido-de-pedra por futebol, inteiramente marcado pela presença constante do Fluminense Football Club em tudo que faço, em tudo que penso, em tudo que ajo, daria as caras, instantaneamente – “Será tricolor?”, “Quantos anos terá?  Mostrou habilidade com a pedrinha, hein, quem sabe um teste pra Xerém?”, “Pô, o maluco bateu no ressalto com o bico do calçado, deveria ter tentado uma trivela.”, “Pela rapidez com que se levantou, esse maluco deve ser ágil¸ hein, acho que daria um bom atacante.”, “Tomara que não seja canhoto!” – com toda certeza, tampouco me esqueceria de seu joelho avariado, cuidadoso que sou com as nossas promessas de craque. 

O sangue grená, bordeaux o vinho à mesa, laranja minha fruta preferida, tomatão o short das minhas peladas, cinzas e brancos os azulejos que decoram o banheiro social do meu apê,  verdes ou brancos ou vermelhos os elásticos trançados nos brackets de meu aparelho dentário, o “Show do Fluzão” meu programa favorito de TV, “As Laranjeiras Imortais” meu livro de cabeceira, Vert Blanc Rouge o baile de que um dia ainda vou participar, Álvaro Chaves o centro do Universo em minha geografia imaginária, vinte e um de julho certamente a data exata do Big Bang primordial.  As tais três cores que traduzem tradição – verde, branco, grená, laranja e cinza –, fazendo do três meu número predileto. Em sendo menino, na hipótese de um dia ter filhos, Romerito ou Samarone.  Se for menina, mais fácil ainda, Galharda ou Rivelina!

Meu comportamento sendo moldado por meus reflexos, sofrendo forte influência do meio ambiente, ou sei lá, coisa parecida.  Vai ver, não entendi direito.  Minha mulher diz que é loucura, que é desvario, que é doidice, e eu venho tentando buscar explicações à base da Reflexologia, do Behaviorismo.  Cientificamente, enfim. 

 

Até porque essa tal de Ciência tem mesmo que servir pra alguma coisa, afinal de contas.

  

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  • image Tanta volta pra muito pouco...
    (Postado por sound, Outubro 16, 2008, 2:18 PM)
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