A inveja é uma merda, todos bem sabemos de longa data, mas eu tenho que bater a real pra vocês, que são meus camaradas: li um dos últimos artigos do mestre Casoba, há algumas poucas semanas, publicado no site irmão da SempreFlu (www.sempreflu.com.br), e confesso que quase acabei sufocado com a quantidade absurda de baba produzida por minhas glândulas salivares – um braço ou uma perna, quiçá minha alma, em troca de ter vivenciado, ali, na lata, ao vivo e a cores, um fluvéillon daqueles, ôpa, e teria sido, desconfio, excelente negócio.
Cercado de irmãos tricolores, em plena véspera de uma das datas mais especiais da história do clube – nada mais, nada menos, que o centenário do Fluzão –, em seu apê, cuja famosa Janela Tricolor dava de frente pra sede do Fluminense, de cara pro Estádio das Laranjeiras, o Casoba viveu o que, apropriadamente, qualificou como um momento especial em sua vida: um réveillon julino, especial, estritamente tricolor. E era especialíssimo mesmo, aquele momento – outro igual, somente daqui a cem anos, afinal. Pude acompanhar, é verdade, e embora a pouco mais de uma centena de quilômetros de distância do evento, madrugada adentro, plugado na internet, toda aquela movimentação fantástica – sozinho no meu quarto, enrolado em meu cobertor de estimação, catei meu uisquezinho irlandês véio de guerra e, a cada nova mensagem postada no Fala Tricolor, o fórum da SempreFlu, pelos amigos que participavam do tal fluvéillon, pus-me a brindar, o copo solenemente suspenso, como a atingir suas taças imaginárias, aos gritos de “Nenseee!”, abafados em virtude do adiantado da hora, numa de não incomodar a vizinhança, a partilhar a emoção daquele momento histórico. Fui dormir completamente mamado, sabe-se se lá a que horas, mas felizaço, com um sorriso franco estatelado na face, em meio a toda aquela atmosfera tricolor – posso mesmo jurar ter ouvido, algo distante, ao deitar a cabeça no travesseiro, uma música que bem parecia uma versão do nosso hino, entrecortada pelo espocar de, pelo menos, duas ou três saraivadas de fogos de artifício. Nada, porém , que pudesse ser comparado à experiência de ter estado lá, fisicamente, é evidente. Acompanhei aquilo tudo via pay per view, digamos assim, com a vantagem óbvia – um bônus, enfim – de não ter que aturar os comentários do Raul Quadros.
Pois, pra quem, como eu, jamais imaginaria poder ter a oportunidade de presenciar, in loco, experiências próximas às que o Casoba vivenciou há exatos três anos, a última semana aqui na serra friburguense foi verdadeiramente surpreendente.
Tudo começou na última quinta-feira, data cabalística de 21 de julho. Cheguei à Mansão dos Sales, localizada no Condomínio do Stucky, aqui mesmo em Friburgo, lar doce lar dos meus brothers Beto e Rosana e da molecada mais bem vestida deste planeta, pontualmente às 19h22min17s, acompanhado de meu camarada Jayme Lima e seu filhote, o tricolor João Pedro, que, mesmo próximo de completar um aninho de vida, deu show de simpatia, demonstrando uma fleugma que eu qualificaria, não conhecesse suas origens brasileiríssimas, como absolutamente britânica – mesmo em meio àquele caos, vozes exaltadas, cantorias diversas, discursos inflamados, trilha sonora roquenrol e o escambau, o moleque dormiu na hora em que deveria dormir, acordou na hora em que deveria acordar, não choramingou em momento algum e, ainda por cima, mamou com moderação, ao contrário de muito marmanjo por lá! Dez, nota dez!
O motivo principal da reunião era o de, juntos, comemorarmos o 103º aniversário do Fluzão, com o tradicional parabéns a você e tudo o mais de direito, além da oportunidade única de finalmente poder abraçar um de meus amigos virtuais de infância, o Arthur Freyesleben, o Freyes de Curitiba, de tantos e tantos posts na SempreFlu, que, de férias, fazia-nos uma visita naquela data tão especial. Pois além da Dedé, simpaticíssima esposa do Freyes, ainda estavam lá, de brinde, meu velho companheiro de shows de roquenrol, o bissexto Edegard, mais o sumido Alessandro Monnerat, o mega empreendedor Beto Goldwyn Meyer e sua mulher Sandra, por sinal a outra feliz aniversariante do dia, além, é evidente, do governador Beto Sales e sua primeira-dama, Rosana, os anfitriões perfeitos, juntos de sua prole fashion. Logo após, chegaram o tricolindo Léo Costa e o Gustavo, meu xará, que, mesmo trazendo na bagagem um litrão de responsa, uiscão do bão, ainda quase acabaram com todo o líquido ao redor – mesmo a água do aquário chegou a ser atacada, os peixinhos começando a passar perrengue, salvos pelo gongo, uma coisa impressionante.
A temperatura estava morna, agradabilíssima. A contrastar e equilibrar todo aquele frio cortante do clima invernal da serra friburguense, o calor humano dos muitos irmãos tricolores que nos cercavam. Falamos de Fluminense, falamos de Fluminense, e falamos, pra variar, de Fluminense. Melhor, impossível. O roqueiro Freyes assumiu pouco a pouco o posto de orador oficial do evento, proporcionando alguns dos melhores momentos do encontro, ora citando as dezenas de apelidos grotescos e hilários de nossos jogadores, ora contanto a nós como xingou, esgoelando-se a plenos pulmões, o Jancarlos e o Fernando Henrique, bem próximo dos caras, na lata dos malucos, num jogo do Flu em Curitiba, no que foi aplaudido de pé por todos os presentes. Todo mundo cantou parabéns pro Fluzão por diversas vezes, outras tantas também pra Sandra Goldwyn Meyer, claro, e no final já ninguém tinha mais voz – culpa a ser imputada, talvez, pro Beto Sales, que, de propósito, manteve as luzes da Mansão apagadas por longo período, velas acesas aqui e ali, só de sacanagem, pra ver o que rolava. E deu certo o estratagema do Beto – as cantorias de parabéns acabaram saindo, equalização campeã, emendando-se umas nas outras, enfim.
Vivido sob ressaca bem braba, daquelas latejantes, o dia seguinte foi marcado pelo fato histórico que ficou conhecido como a Batalha do Chimarron – em determinado momento, surgiu a idéia de se fazer, na própria churrasqueira da Mansão, um mini-flurrasco entre nós, e saímos todos em busca de carvão, de sal grosso, de pães e de alho, de uns nacos de carne. O tempo foi passando, porém, e, diante da dificuldade em se conseguir um estabelecimento no qual se pudesse fazer a compra dos apetrechos com cartão de crédito, acabamos decidindo que o melhor, àquela altura, em virtude do adiantado da hora – o Freyes pegaria o busum pra São Paulo algumas horas mais tarde –, e embora a contragosto, seria optar por abortar aquela idéia, e partirmos todos rapidinho pra uma churrascaria, eis que, ademais, a fome urgia. Escolhemos a Chimarron, sua filial de Mury, de fácil acesso, fazendo, a seguir, os contatos necessários com todos os envolvidos, através dos respectivos celulares – tudo resolvido, imaginamos. Ledo engano. A opção não agradou ao Léo e tampouco ao Freyes, que reclamaram muito da decisão, considerando-a uma aberração, uma arbitrariedade – “ora, quem o Beto pensa que é, um monarca?” –, ameaçando sequer tocar na comida, em protesto pelo que entenderam ser um aborto ilegal, uma sacanagem, um verdadeiro crime contra a natureza, contra a humanidade. Fazendo pirraça, vejam vocês – eram os injustiçados, os revoltados da turma, os sem-carvão, os pobrezinhos. “Bexiga cheia, barriga vazia”, arrisquei meu palpite – e foi na bucha: no caminho para o Chimarrron, encontramos os tais dois rebeldes sem causa, melhor dizendo, sem calças, fazendo um singelo xixizinho em plena via pública, que coisa feia, descaradamente, interrompendo o trânsito, escandalizando a sociedade, e, já na churrascaria, nem bem a primeira porção de batatinhas fritas aterrissou na mesa, as primeiras carnes a caminho, ambos se viram forçados a abandonar quaisquer radicalismos – e o programa acabou sendo ótimo, enfim, os ânimos logo arrefecidos, o rodízio show de bola, o chope geladinho, os papos tricolores agradáveis como de hábito, estava tudo realmente perfeito.
Despedi-me do Freyes e da Dedé, logo depois, prometendo a ambos uma visita futura a seu reino distante, o que pretendo cumprir tão logo possa – de tricolor pra tricolor, não pode ser diferente, promessa é sinônimo de dívida. De preferência, lógico, quando o Fluzão estiver por aquelas bandas – uma pena, terem ficado apenas dois dias por aqui, uma noite apenas.
Mas a minha semana tricolor não acabaria ali, diria certamente o Julio Iglesias, “son tantas las emociones”. O dia raiou no sábado, céu azulado, nenhuma nuvem à vista, os alto-falantes anunciando, decibéis a mil, bombasticamente – A SUDERJ INFORMA, SUBSTITUIÇÃO NO MARACA, SAI O FREYES DE CURITIBA E ENTRA O MANFRINI DA MOOCA!
(continua)