“Vem cá, meu filho, me diz uma coisa, você já comeu alguém?”
Na boa, pessoal, deveria ser essa a primeira pergunta a ser feita, discretamente, ao pé da orelha de todo moleque que chegasse a qualquer campinho desses, de várzea, chuteirinha debaixo do braço, a fim de encarar um teste qualquer, numa dessas peneiras xerenianas da vida.
Parece pilha, mas é papo sério. A adolescência do ser humano, período compreendido entre os doze e os dezoito anos, justamente a idade dessa molecada, constitui fase bastante complicada, eis que ocorrem verdadeiras revoluções em nossas mentes, em nossos corpos, transformações físicas, distúrbios freqüentes, de ordem emocional – fatores diversos que, a bem da verdade, são extremamente importantes, pois preparam o nosso ambiente operacional, digamos assim, rumo ao desenvolvimento necessário pra que possamos assumir, dignamente, um novo papel perante a família, perante a sociedade, perante nós mesmos, enfim. Ocorre, passo a passo, um amadurecimento gradual, provocado principalmente por reações hormonais, que culmina com a chegada da fase adulta, em que devemos, então, estar aptos a usufruir dos tais privilégios da maturidade, plenamente, numa de – fazendo uma graça aqui, outra ali, e tal – buscar a tão desejada perpetuação da espécie. É o que dizem as enciclopédias, enfim, e eu costumo respeitar o que dizem as enciclopédias.
Autores importantes, das mais diversas áreas do conhecimento humano, definem como essencial a presença de atividade sexual na vida de cada individuo. Essencial para a mente, essencial para o corpo. Se a famosa pirâmide das necessidades, proposta por Abraham Maslow, apresentava o sexo como apenas mais uma das carências fisiológicas do ser humano, Freud postulava, por sua vez, a presença de uma espécie de poder mobilizador, a que ele chamou libido, uma quantidade determinada de energia psíquica que atuaria diretamente em nosso desejo sexual. No mundo de hoje, não resta mesmo qualquer dúvida, mesmo a Caras só fala disso o tempo todo, o exercício pleno de nossa sexualidade está estritamente ligado à qualidade de vida de todos nós, pobres mortais, em todos os níveis – problemas de ordem afetiva costumam indicar, via de regra, o aparecimento de diversos males de nossa vida moderna, desde determinados distúrbios de origem psíquica, estresse em níveis elevados, irritabilidade e violência, até certos casos de obesidade, de depressão, misérias, enfim, da alma e do corpo, e, talvez, senão o principal de todos, pelo menos um dos que mais nos dói, enquanto torcedores de futebol, a quantidade absurda de chances desperdiçadas por nossos atacantes, na cara do gol adversário. Não, não se iludam, eu tou falando sério: males como a violência social generalizada e os gols perdidos das tardes-noites de domingo possuem, sim, um denominador comum. Metáforas de uso corrente em nosso meio desportivo, travestidas de expressões cálidas e inocentes, como cutucar o barbante, enfiar no cantinho da trave, dar uma canetada, penetrar na defesa adversária, e outras mais, constituem a senha pra se perceber o óbvio, que, no entanto, até hoje, quase ninguém sacou: é tudo sexo, minha gente – ou, em certos casos, que são melancólicos, a absoluta falta dele.
Da brilhante teoria do arame liso, do nosso Thales Treiger – “o time do Fluminense cerca, cerca, mas não agride, não consegue penetrar como se deve” – ao explícito e grosseiro botaprafudê das torcidas organizadas, passando pelo carinhoso pimba na gorduchinha dos narradores esportivos, aqui, ali, em todo canto: sexo, sexo, sexo.
E não sei se é mero pessimismo, ou alguma cisma minha, particular, mas o problema parece ter mesmo uma relação maior com o Fluminense, em comparação aos demais times – é a impressão que tenho, pelo menos. A grama do vizinho sempre mais verde, a nossa zaga a mais frágil, os nossos atacantes os que perdem mais gols, os times dos caras parecendo, sempre, ter um jogador a mais, eis a síntese de nosso pensamento típico de torcedor, em especial quando a fase não é lá das melhores, exatamente como a do Fluzão pós-desmanche das últimas semanas – demos uma respirada das boas, frente ao Vasco, com o providencial retorno do Felipe, e sapecamos o vice-lanterninha Atlético MG, em pleno Mineirão, conseguindo belo upgrade na classificação, principalmente porque, por sorte, todo o pelotão da frente tropeçou. Não obstante, considero prudente aguardar as próximas rodadas, pra tentar vislumbrar qual vai ser a do Flu, afinal, frente a adversários de maior peso, daqui pra frente.
No entanto, cisma ou não, tivemos algumas ocorrências célebres, incontestáveis, em nossa trajetória clubística tricolor: o folclórico Cafuringa, um caso clássico de inapetência comprovada; o inacreditável Toninho El Bíblico, uma hipótese provável – louvável, diria talvez o pessoal da ala religiosa – de opção pelo celibato; o cômico-não-fosse-trágico Ameba e seus petelecos de meia-tigela, o irritante Boneco de Olinda, ainda mais escalado no ataque, um caso de polícia. Mas, talvez, o episódio mais emblemático de nossa história recente tenha ocorrido, curiosamente, não com um de nossos atacantes, mas com um defensor, um de nossos alas – o “caso PC”, quem não se recorda? O nosso Paulo César, no início de sua carreira no Fluzão, fixo na lateral direita, era um jogador que irritava a torcida, com o seu futebolzinho de então, meia-boca. Marcava mal, passava mal, cruzava mal, chutava mal, fazia tudo pessimamente. Estava sempre cabisbaixo, com aquele olhar de peixe morto, o jeitão de vira-lata maltratado pela vida, a expressão de derrota estampada na face. Com toda a razão do mundo, a torcida tricolor odiava o PC. Pois o rapaz arrumou uma noiva, pouco tempo depois contraiu matrimônio – e, então, operou-se o milagre: no dia seguinte à noite de núpcias, o PC já foi lá e meteu dois golaços pra cima do Cruzeiro, tomou as rédeas da partida, foi eleito o melhor jogador em campo, matou a pau mesmo, o maluco simplesmente acabou com o jogo. E isso, presume-se, com apenas uma bimbadazinha, hein, senhoras e senhores! Teria sido mero acaso? Pois todas as evidências apontam o sentido contrário – daquele dia em diante, provavelmente em função do ritmo forte em geral imposto pela vida de casado, o PC transformou-se de vez, e já não era mais a mesma pessoa. Passou a jogar bem em ambas as laterais, seus cruzamentos ficaram perfeitos, melhorou horrores na marcação, seus arremates a gol um primor, e, meu Deus, o que dizer de seus passes de longa distância, seus lançamentos de quarenta, cinqüenta metros, milimetricamente engendrados e executados? O cara virou um Gérson, um Rivelino, um craque completo, da noite pro dia! Não bastasse, o PC desandou a marcar gols, mesmo atuando numa faixa de campo distante da meta adversária, e cada golaçoaçoaço de fazer babar de inveja um Reinaldo, um Van Basten, um Ronaldo Fenômeno! Foi parar na Seleção, virou unanimidade nacional, seu passe logo vendido pra uma das principais equipes da França. Pereba em gênio da pelota, água em vinho, lata em ouro, transubstanciação plena, completa – um caso, sem dúvida, como diriam os meus camaradas vulcanos, realmente fascinante.
Os efeitos hormonais, vasculares, neurológicos e musculares de uma relação sexual provocam uma reação em cadeia, em nosso organismo, fazendo com que o sangue circule rapidamente, por todo o corpo, entupido de substâncias como a serotonina, a endorfina, a dopamina, mesmo certa dose de adrenalina, facilitando a irrigação, estimulando a freqüência cardíaca, favorecendo a oxigenação de todos os órgãos. A prática regular de sexo tonifica os músculos, libera tensões. Por vezes, numazinha só, daquelas caprichadas, chega-se a queimar cerca de trezentas calorias – é ginástica pra valer, aeróbica de alto impacto, pessoal, pra personal trainer nenhum botar defeito. Sexo diminui o estresse, fortalece o abdômen, as pernas, o glúteo, é bom até pra tosse, dizem, e ainda faz aumentar consideravelmente a auto-estima – e então, quem pode afirmar ter sido apenas coincidência, o que ocorreu com o nosso glorioso PC?
Qualquer um é capaz de perceber, nem é preciso recorrer a institutos de pesquisa, ou algo do tipo: os principais jogadores da história do futebol – Pelé, Garrincha, Maradona, Romário, outros mais – têm mais conquistas amorosas, mais ex-mulheres, mais filhos, talvez, que gols marcados, é um dado impressionante! Essa turma pegava geral, mesmo, não tinha conversa. Sabiam fazer a coisa do modo correto – comiam a bola e, de quebra, ainda empregavam este simpático verbo de outras maneiras igualmente interessantes. Craques no campo, craques na cama, no sofá, no tapete, em cima da mesa, em outros locais que a criatividade do leitor puder ou quiser alcançar. Enquanto isso, nos tempos atuais, e especialmente no Laranjal, somos obrigados a amargar conviver com gerações sucessivas de moscas-mortas, de presepeiros ineptos, de manés de carteirinha. É dose pra mamute.
O Vale das Laranjeiras apresenta, mesmo, hoje, sinais claros de endemia, é caso pra saúde pública, até, de repente. Pra nosso desespero, o elenco atual do Fluzão, assim examinado à distância, com honrosas e raríssimas exceções, e sem mesmo ser necessário citar nomes – o Beto Sales arriscou algumas poucas iniciais, em sua enigmática coluna da semana passada, o que não me atrevo a fazer, uma vez que não disponho de todo aquele arsenal literário –, parece mesmo constituir o registro mais grave de todos os tempos, eis que a incapacidade para o arremate, para a conclusão a gol, para a cutucada final, é absoluta. Na hora H, não duvido nada, cada um deles, certamente, deve cismar de dar montes de pedaladas furadas, um autodrible aqui, outro ali, firulas mil, e objetividade mesmo, que é bom, necas. Não produzem – literalmente! – porra nenhuma. Fico imaginando a menina ali, quietinha, coitada, olhando aquilo tudo, assustada. Deve acabar desistindo, saindo de fininho, vazando do maluco que, de repente, nem percebe, tão absorto está em terminar o festival de malabarismos, de presepadas, de ridículas coreografias. É o típico caso do sujeito que não conclui, não chuta a gol, e tampouco sai de cima – vai penetrar nas defesas como, desse jeito? Afinal, estamos formando jogadores ou monges budistas?
A solução? Simples – simplória, até: socar educação sexual nesses moleques, desde a base. A Sexologia, conjunto de conceitos interdisciplinares que examina os aspectos que cercam a atividade sexual humana, representa área de estudos relativamente recente, uma vez que somente no século XIX deu seus primeiros sinais de vida, na Europa, de modo tímido, inicialmente escandalizando a sociedade, em função do pudor existente na era vitoriana, logo após, porém, passando a estimular a busca acadêmica por respostas satisfatórias às novas teses propostas. Até então, a sexualidade dos homens era vista apenas como um aspecto relacionado ao instinto da espécie, seu estudo limitado ao aparelho reprodutor. Mesmo nos dias atuais, a educação sexual permanece, ainda, em certos casos, para uma parcela razoável de educadores, por vezes influenciados por bloqueios oriundos de certas crendices populares, como uma espécie de tabu – são poucas as instituições de ensino que possuem interesse real em tratar o tema com a importância merecida. A sexualidade humana pressupõe metodologia pedagógica que possua abordagem tão vasta quanto a própria vida – envolve não apenas o ato sexual, pura e simplesmente, mas também sentimentos diversos, emoções, desejos e fantasias, agrega ensinamentos de diversos saberes, da sociologia à psicologia, da antropologia à etologia, considerando, em conjunto, desde nosso comportamento social, como indivíduos civilizados que reivindicamos ser, até o modo como funcionamos biologicamente, ali, na real, durante a briga, carne versus carne, como simples animais. O seu objetivo, como quaisquer outras matérias relacionadas à educação do ser humano, não é outro senão o de favorecer o crescimento do indivíduo, contribuir para a formação dos jovens, para que se tornem adultos responsáveis, saudáveis, na ponta dos cascos, prontos pro que der e vier – ôpa, taí, acho que a chance disso resolver o problema do Fluzão, de vez, é grande, hein...
Não há mesmo outra saída. Não bastam os treinamentos técnicos, táticos, a parte física, reforço nos fundamentos, e o que mais a cartilha vigente determinar. Os meninos andam carecendo, mesmo, ali, na bucha, é de orientação sexual caprichada, de responsa, de preferência ministrada por profissionais. Alô, Dona Suplicy, as vagas estão abertas lá no Laranjal, hein! Eles precisam é do máximo possível de informações disponíveis, grupos de estudos, gráficos indicativos, ilustrações detalhadas, áudio-visual, palestras, workshops, assinaturas gratuitas da Playboy e o escambau de bico – “Garganta Profunda” neles, minha gente! Dá-lhe, Rita Cadillac! Não é possível, esse pessoal não faz sexo, sequer deve pensar em sexo! Será que nunca leram um Nélson Rodrigues, nunca viram uma tirinha do Carlos Zéfiro, nunca assistiram sequer a uma pornochanchadazinha brasileira, daquelas clássicas? Abaixo o Cartoon Network! Que sejam moldados, pelo menos, para serem dignos discípulos de Onan, é o mínimo aceitável! – mas permanecerem como adoradores de Vesta, indefinidamente, isso não, de jeito maneira, nunca mais, pelo bem do futebol! Ô Gama, já que é você o motorista desse ônibus, aproveita e radicaliza de uma vez, encapa essa molecada e leva logo todo mundo pra um tour na Casa da Titia mais próxima!
Mas rápido, hein, antes que seja tarde demais...
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a
Pois falamos pouco de sexo, muito sobre drogas, e praticamente nada a respeito do bom e velho rock’n’roll – o que é imperdoável, especialmente em se tratando de uma coluna com um título porreta desses. Antes tarde que nunca, vamos lá – uma dica quente, campeã, para o pessoal da ROCKFLU: cliquem o mouse, olho na telinha, fucem nos emules e nos torrents da vida, baixem e ouçam o futuro, que responde pelo nome de Rose Hill Drive. Esses moleques, que sequer completaram duas décadas de vida, não lançaram, ainda, nenhum álbum, salvo um Epzinho tosco, independente, contendo parte de um show do início de abril deste ano no Fox Theatre, em Boulder, no Colorado, e, no entanto, contabilizam já uma sólida trajetória, por conta de apresentações incendiárias, costa a costa, nos States, em sucessivas turnês mano a mano com pesos-pesados do gênero, como Van Halen, Gov’t Mule e os Crowes. A crítica especializada anda babando pra cima do Rose Hill, que até fã-clube já tem, e alguns críticos mais afoitos juram enxergar semelhanças entre o início do Drive e os primórdios do Led Zeppelin, vejam que coisa, foram citar logo o Tiranossauro Rex entre os dinos – menos, gente, menos. De todo jeito, o Rose Hill Drive constitui a aposta mais forte da indústria, pra estourar de vez no ano que vem, e eu seria capaz de – sem nem saber de que quantia estamos falando aqui, hein –, arriscar pelo menos o dobro, nessa...
(Postado por chester, Fevereiro 7, 2011, 6:27 PM)