”Não quero nem saber sobre os timinhos de vocês, o que importa é que o Fluzão vai seguir matando a pau, e no final do ano vai estar brigando lá em cima – longe de penar pra não cair, e nem disputando o campeonato paraguaio!”
Proferi triunfalmente a frase acima hoje cedo, logo de manhã, ao deixar a padaria, dando cabo a uma discussão que se arrastava por intermináveis sete minutos, dezoito segundos e três décimos com um botafoguense mala – alguém conhece um único botafoguense, unzinho só, que não seja chato pacas? – e um rubro-negro idem. Adentrei o estabelecimento e, como de praxe, educadamente, solicitei à balconista, por favor, um litro de leite, quatro mini-pães e um pote de requeijão, e o malão em questão aproximou-se furtivamente, já numa de me encher o saco, o dia mal começando a raiar, mandando – ainda!, vejam a falta de criatividade –, uma pilha pela perda da Copa do Brasil, pro temível esquadrão da aprazível e bucólica Jundiaí: “Marca boa de requeijão é aquela ali, ó, Paulista!”. A gargalhada sarcástica do palhação atraiu outro sofredor-mor, este por sua vez flamenguista, e os dois resolveram juntar forças pra tentar estragar de vez o meu humor, que normalmente já não acorda lá essas coisas. Não é fácil, não, hein, minha gente, o Fluminense nos apronta cada uma...
Pois soltei a tal frase de efeito, após demorada troca de amabilidades clubísticas de parte a parte, e vazei, ato contínuo, sequer aguardando pra checar que efeitos ela teria em ouvidos alienígenas – prováveis reações de escárnio, deboche e, naturalmente, alguma retaliação furada, recheada de inveja e despeito. Foi melhor, mesmo, ter sumido dali sem nem olhar pra trás.
Deixando o local, segui pro meu apê, sacolinhas plásticas nas mãos, o estômago já começando a reclamar o seu de direito, remoendo, pelo caminho, aquela desagradável sacaneada matinal, a relembrar, passo a passo, todo o triálogo que acabara de ter com os dois infelizes – “Fluzão é só alegria”, “Esse teu Fluzinho não é de nada, tá morto, não ganha nem do Juventude”, “Esses timecos de vocês vão cair esse ano, todos os dois”, “Cadê o tal do Toró, o novo Pelé?”, “Eu troco pelo Júnior Baiano, grande artilheiro”, “Aquele lateralzinho esquerdo é ridículo, hein”, “O Fluzão vai pra Libertadores e vocês vão ficar babando”, “De que adianta, eliminado na primeira fase por time venezuelano”, “Esse teu Botafoguinho, não demora, começa a cair pelas tabelas”, “Coitado, pensa que tem time”, “Já fui campeão esse ano, corram vocês atrás”.
Timinho, Fluzão, malão, timaço, lateralzinho, Botafoguinho, palhação, timeco – como se nota, outro seria o efeito, se deixássemos de utilizar o recurso do grau, forma particular de derivação dos vocábulos, em nosso idioma, cuja utilização depende, diferentemente dos casos de flexão, exclusivamente da escolha do usuário, e pode ser aplicado tanto a substantivos, ao indicar maior ou menor tamanho, quanto a adjetivos e, segundo alguns autores, mesmo a advérbios, expressando noção de quantidade e de intensidade. As variações de grau cumprem a importante função de enriquecer o modo como nos expressamos, ao exprimir com maior precisão a diversidade dos seres, das coisas que nos cercam, dos sentimentos que vivenciamos. Mas, caramba, o que é que isso tem a ver com o Fluminense, afinal de contas?
Muito simples – longe de sequer almejar qualquer pretensão pasqualeana de jogar uma pedra sobre assunto tão encardido, tenho a intenção de, humildemente, e aproveitando o gancho da tal discussão light, que tive lá na padaria, de manhãzinha, recheada de aumentativos e diminutivos, tentar jogar uma luz nessa questão fundamental, que atormenta a Humanidade desde o início dos tempos: o certo é “Flusão” com esse, ou “Fluzão” com zê?
Postados nos diversos fóruns da internet, inscritos nos badulaques tricolores vendidos a torto e a direito, inseridos nas pichações dos muros da vida, mencionados mesmo em artigos veiculados pela grande imprensa, aqui e ali, muita gente escreve de uma forma, outros tantos de outra. Qual o modo correto, de uma vez por todas?
Dizem as gramáticas – e não me atrevo a discordar – que substantivo é a palavra que designa um ser real ou fictício, um objeto, um lugar, uma ação ou um sentimento. E “Fluminense”, então, afinal, o que é? Um ser? Um objeto? Um lugar? Um sentimento? Pois o vocábulo Fluminense, como tão bem sabemos em nosso íntimo, significa tudo isso e muito mais – trata-se, inequivocadamente, pois, de um substantivo. E dos mais charmosos, é claro. Pois os substantivos, na língua portuguesa, podem estar em três dos chamados graus – normal, diminutivo e aumentativo –, cujas variações podem ocorrer de duas formas distintas: analítica, em que ocorre o acréscimo de um adjetivo (time pequeno / time grande), ou sintética, com a utilização de um sufixo (timão / timaço / timinho / timeco).
O uso do grau aumentativo, regra geral, constitui recurso próprio de linguagem que contém, embutida, generosa carga negativa, cuja força depreciativa é patente, especialmente nos casos de variação sintética – “narigão”, “palhação”, “barrigão”, “malão”, “dentão”, “burrão”, não são referências agradáveis aos ouvidos de ninguém, salvo em se tratando, evidentemente, de determinadas taras ainda pouco estudadas pela medicina.
No mundo do esporte, entretanto, especificamente, ocorre o sentido inverso: o uso do diminutivo, que normalmente reforça a idéia de afetividade, de docilidade, de simpatia – “amorzinho”, “criancinha” –, apresenta características de desprezo, de depreciação, mesmo de preconceito, certo menosprezo até, expressando noções absolutamente negativas – “timeco”, “jogadorzinho”. Por analogia, nos casos de utilização do grau aumentativo, ocorre o mesmo fenômeno, afinal, se ter “cabeção” como apelido constitui motivo de irritação para a maioria da população, a nenhum torcedor de futebol, ou mesmo de outro esporte qualquer, desagradará, certamente, a idéia de que seu clube de coração conte com um “timaço” em determinada temporada. Se o tamanho excessivo é visto como algo feio ou desproporcional na regra geral, em nosso mundo particular ele adquire significado exatamente oposto – Fluzão constitui forma carinhosa de nos referirmos a nossa paixão desportiva, cracaço o que todos desejamos a envergar nossa gloriosa camisa dez, timinhos, por outro lado, todos os adversários que vierem a nos enfrentar em qualquer campo, em qualquer canto.
São inúmeros os sufixos que podemos utilizar para as variações de grau, em nossa língua pátria – timaço, riacho, corpanzil, viela, pratarraz, lugarejo, bocarra, papelucho, burrico, bocadilho, fogaréu. Os sufixos ão e inho, porém, são os mais usados para a formação dos graus aumentativo e diminutivo, respectivamente, em sua forma sintética, sejam plugados diretamente à palavra de origem, quando esta termina com fonema que permite a fusão pura e simples – time/timão – ou por intermédio de uma consoante de ligação, que cumpre a importante função tática de evitar seqüência fônica incômoda ou desagradável – precisamente, os casos de amor+z+ão, papel+z+inho e, ufa!, chegamos lá, aleluia!, Flu+z+ão.
Mas por que cargas d’água não se pode utilizar um xis, um vê, um tê ou mesmo um esse, como consoante de ligação, ao invés da letra zê? Por que justamente o zê, meu Deus? Com ordem de quem? Pesquisei inúmeras gramáticas, incontáveis páginas virtuais de dicas morfológicas, também enciclopédias, almanaques diversos, mesmo minha coleção de gibis, fiz contato até com o aposentado Professor Raimundo, da extinta Escolinha, por e-mail, e não obtive sequer uma pista que fosse, que prestasse. Todas as fontes citam a letra zê como a alternativa correta nesses casos, porém nenhuma explica o porquê da obrigatoriedade de sua utilização, em detrimento das outras consoantes, coitadinhas. Até que consultei, finalmente, minha infalível assessora-pra-assuntos-gramaticais e descobri que, dessa vez, ao que parece, contrariando o que sempre diz o Arnaldo pro Galvão, na TV, a regra não é nada clara – Dona Luciana, famosa exterminadora de dúvidas de português do eixo Cantagalo-Euclidelândia, e interessadíssima no tema, eis que torcedora tricolor fanática como o pai, o Seu Joarcy, simplesmente vaticinou: “O equívoco de se utilizar a letra esse ao invés da zê advém do fato de que a última sílaba de Fluminense possui fonema iniciado em esse, e faz o aumentativo sintético como Fluminensão, o que normalmente induz as pessoas a acreditarem que Flu, simpática e singela abreviatura de Fluminense, também deva sofrer variação de grau com grafia semelhante”. E completou, em tom solene, buscando disfarçar, por uma questão de compostura, a grande satisfação que sentia por ter a competência de eliminar o problema de vez: “Quanto à consoante de ligação, é a zê porque escolheram a zê, oras, acharam que ficava melhor que as outras. Não tinham que escolher uma delas? Pois simplesmente escolheram a zê”. Pronto. Matou a pau. C’est fini. Melhor não discutir com Dona Luciana, hein, vão por mim, ainda mais em se tratando de uma questão tão estritamente ligada a “Letras”, justo sua formação acadêmica.
O correto é Fluzão, com zê, pessoal, e ponto final.
O nosso time do coração, portanto, enquanto substantivo, tem apenas dois graus aceitáveis – ou vamos de um ainda que improvável “Fluminensão”, ou então do carimbadíssimo e chiquérrimo “Fluzão”. Não tem escapatória, digo, considerando-se, claro – e fiquem tranqüilos, Dona Luciana concorda com tudo isso –, inteiramente afastadas as demais possibilidades gramaticais, que, embora construídas de modo correto, no entanto ferem os ouvidos e a estética, como “Fluminensezão”, “Nensão”, ou, pior ainda, “Nensezão” e, queisso!, “Flumizão”.
Nós, os torcedores do Fluminense, portanto, podemos discordar em gênero, e, vá lá, mesmo em número, vez ou outra que seja – mas, em grau, ah, pessoal, em grau precisamos concordar sempre, hein, senão fica feio!
Dá-lhe, Fluzão! – mas com zê, hein, gente, por favor, não vão esquecer! Com zê!
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DICA ROCKFLU DA SEMANA
Arrumei, na semana passada, um jeito meio-que-disfarçado, miguezão brabo, mesmo, de incluir um paragrafozinho sobre rock’n’roll, em minha coluna, aqui no Torcida Tricolor. O patrão Beto Meyer foi dar mole, aí babau, já era – quem manda não ler os textos, antes de jogá-los no ar? Bem feito.
Pois a dica sobre o Rose Hill Drive provocou, pra minha surpresa, efeitos colaterais devastadores – milhares de pessoas invadiram ao mesmo tempo, esta semana, os peer-to-peer da rede, em uma busca voraz dos arquivos da banda, o que causou um entupimento colossal no tráfego da internet, a nível mundial, uma coisa impressionante! Recebi inúmeros e-mails, contendo testemunhos tocantes – se, para uns poucos, o Rose Hill não lhes pareceu nada especial, para a maioria, no entanto, significou uma verdadeira revelação dos céus, o caminho das pedras para a salvação prometida. Faz parte, enfim – é tudo uma questão de gosto individual. Mas a mensagem subliminar contida em tais testemunhos pareceu-me nítida, cristalina – a ala roqueira da torcida tricolor clama por mais dicas, exige uma dose maior de atenção, gostaria de ter mais notícias específicas, suplica por um tanto mais, enfim, de carinho roquenrol.
Pois pretendo, daqui por diante, sempre que houver algo a dizer pra esse povo tricolor-roqueiro, e até que o Beto perceba a manobra e me expulse do staff de colunistas do site, manter este espaço, aqui no final da coluna, pra seguir receitando um rock’n’rollzinho aqui, outro ali, em doses homeopáticas, e tal, pro pessoal bacana da ROCKFLU. Periga, é verdade, eu não me controlar e, daqui por diante, só falar disso – mas prometo, hein, pessoal, prometo tentar manter o controle. E só não sou capaz de jurar, assim duma vez, porque é pecado, senão – juro mesmo! – eu juraria. Pois, quanto à sugestão da semana, finalmente!, vamos lá – marquem em suas agendas, pro início de setembro próximo, dias 06 em Porto Alegre, 08 no Rio e 09 em São Paulo, a mais esperada dobradinha do ano: Whitesnake e Judas Priest, em turnê conjunta pelo Brasil, pela primeira vez na história. Dois shows imperdíveis, pelo preço de um: cento e oito pratas pela venda antecipada, e estudantes ainda pagam só a metade disso, vejam vocês – uma verdadeira pechincha. O Judas, que contará com o retorno triunfal de seu band leader e vocalista, Rob Halford, promete passar o rodo em seu repertório clássico, o mesmo podendo ser dito do Whitesnake, que volta a pisar terras brasileiras após nada menos que oito anos de jejum. À parte as aguardadas apresentações, em si, desses dois dinossauros do rock inglês, há a expectativa, entre os fãs mais radicais de ambas as bandas, de que os integrantes de cada uma delas demonstrem interesse em participar, conjuntamente, de parte dos dois shows, numa jam session algo inusitada e inédita, o que geraria certamente sonoridades um tanto bizarras, ou no mínimo curiosas, como, por exemplo, David Coverdale tentando acompanhar, dando o sangue, aos berros, “Painkiller” ou “The Ripper”, do Judas, ou Rob Halford arriscando clássicos whitesnakeanos de todos os tempos, como “Love Ain’t No Stranger” e “Walking In The Shadow Of The Blues”. Hilário? É pagar pra ver, e então ver pra crer – em Porto Alegre, o show rolará no Gigantinho, no Rio está definido o Claro Hall e, em São Paulo, a Arena Skol (Anhembi) será o local do evento. Informações adicionais, no entanto, sobre os shows brazucas dessa dupla do barulho – onde, quando e como comprar ingressos, por exemplo – podem ser obtidas a partir dos sites oficiais de cada banda, molim de achar e de clicar, nomedabandapontocom.
E fiquem tranqüilos, já chequei a tabela do Brasileirão, a produção do evento parece mesmo ter pensado em todos os detalhes: o Fluminense não estará em campo no dia 06, nem no dia 08, tampouco no dia 09 – no feriado do dia 07, enfrentaremos o Cruzeiro, lá em Belo Horizonte, e só voltaremos aos gramados no dia 11, domingo, frente ao Brasiliense, muito provavelmente defendendo nossa liderança isolada, em jogo com mando de campo nosso. Portanto, não há desculpa – vamos agitar, pessoal, e, de repente, quem sabe, levar até um bandeirão do Fluzão, pra esses shows, hein, taí uma excelente idéia...