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Futurologia aplicada, um perdão e dois agradecimentos

Por Gustavo Valladares on Dezembro 31,1969

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Toca o telefone:

         “Alô?”

        “Boa tarde, gostaria de falar com o sr. Carlos, por favor, empresário da srta. Lurdinha.”

        “Perfeitamente, ele mesmo, o que o sr. deseja?”

        “Meu nome é Luiz, Luiz Eduardo Urânio, sou procurador do sr. Zezinho, gostaria de agendar, se possível, um encontro romântico entre os dois.  O sr. Zezinho simpatiza muitíssimo com a srta. Lurdinha, e acredita piamente ser correspondido em seus sentimentos.”

        “Hm, entendo. E o sr. teria preferência por alguma data especial, algum evento específico?”

        “O sr. Zezinho autorizou-me a propor uma sessão de cinema, com refrigerantes e pipoca a gosto, porém não houve definição quanto a datas, este detalhe ficaria a critério, imagino, da srta. Lurdinha.”

        “Compreendo. Checarei a agenda da srta. Lurdinha e, caso lhe agrade a companhia do sr. Zezinho, retornarei com notícias, no mais tardar amanhã, na parte da tarde, está bem assim?”

        “Está ótimo, muito obrigado, estarei aguardando o contato. Tenha uma boa tarde.”

        “Até logo.”

 

Dia seguinte, cinco da tarde em ponto:

        “Alô, sr. Luiz?”

        “Sou eu mesmo, pois não?”

        “Como vai? Aqui fala o empresário da srta. Lurdinha, o sr. Carlos.  Conversamos ontem à tarde, tenho certeza de que o sr. se lembra.”

        “Mas claro que me lembro, o sr. vai bem?  E então, temos boas novidades?”

        “O sr. Zezinho tinha razão, realmente a simpatia é recíproca, e a srta. Lurdinha gostaria imensamente que agendássemos uma sessão de cinema para os dois.  Poderia ser na semana que vem, quarta-feira, às 19h, no Cine Central?  Há uma comédia em cartaz, e a srta. Lurdinha gosta imensamente de comédias.”

        “Está perfeito, perfeito. Farei com que o sr. Zezinho chegue quinze minutos antes, a fim de evitar atrasos ou imprevistos.  Agradeço imensamente por sua atenção.”

        “Não há de quê, faz parte de nossa função, não é verdade? Uma boa tarde para o sr.”

        “Boa tarde.”

 

Chega, enfim, a data do encontro:

        “Olá, boa noite, você deve ser a Lurdinha, eu presumo?”

        “Não, na verdade sou a Carminha, uma amiga da Lurdinha. Ela esqueceu-se de que tinha outro compromisso agendado para este horário, e, como o sr. Carlos também estaria ocupado, pediu-me que viesse representá-la.  Eu trouxe uma procuração, com firma reconhecida, é claro, para o caso de haver alguma dúvida.  Você é o Zezinho?”

        “Não, o sr. Zezinho apaixonou-se repentinamente por uma jovem do Uzbequistão, e embarcou ontem à noite para aquele longínquo país.  Parece que a menina é filha de um milionário daquela região, e o sr. Zezinho pensa em, com um pouco de sorte, fazer também sua independência financeira, unir o útil ao agradável, a srta. sabe como são essas coisas.  Como foi tudo muito repentino, e não houve tempo de desmarcar a sessão de cinema com a srta. Lurdinha, ele solicitou-me que o substituísse.  Eu me chamo Luiz, sou o seu procurador oficial.  Prazer em conhecê-la.”

        “Ah... sei. Muito... prazer.”

        “Pois é... noite fria, não é mesmo?”

        “É... o sr. gosta de comédias?”

        “Por favor, trate-me por você.  Até que gosto, mas esse filme aí eu já vi.  De fato, inclusive fui eu mesmo quem o indicou ao sr. Zezinho. Mas não me importo em assisti-lo novamente, se for o caso.”

        “Na verdade, vou ser sincera com o sr, quero dizer, desculpe, com você, eu odeio comédias. Gosto apenas de filmes românticos.”

        “Sei... se a srta. achar por bem, se você achar por bem, podemos tentar outra sessão, há vários cinemas aqui perto.  Ou algum outro programa, uma peça de teatro, ou mesmo um show.  Parece que o Tom Bence toca de surpresa, hoje, num barzinho aqui ao lado, o que ach...”

        “Espere aí, como é, o que é que você acabou de dizer?”

        “O Tom Bence, hoje tem show dele no Barzinho Central, logo aqui ao lado, você gosta do Tom Bence?”

        “Meu Deus do céu, eu amo Tom Bence!  Tenho todos os seus discos, mas nunca pude ir a nenhum dos seus shows!  Eu nem acredito!  É uma oportunidade maravilhosa!”

 

O show terminou por volta das duas da matina.  Trocaram o primeiro beijo exatamente às vinte pras duas, enquanto aguardavam o bis – ali diante do palco, na real mesmo, lábios nos lábios, línguas nas línguas, ocupando o mesmo espaço, respirando o mesmo ar, sem representantes, sem agentes, sem empresários, sem procuradores.

 

E foi assim, por linhas tão tortas quanto belas, que Carminha, a melhor amiga da Lurdinha, conheceu Luiz, o empresário de Zezinho e, por ele, tão fã de Tom Bence como ela, ficaria apaixonada pelo resto de sua vida.

 

Por pura ação do destino, e sem acionar intermediários, pra surpresa de ambos – e de todos nós, que, afinal de contas, já nem acreditamos mais em finais tão felizes assim.

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Não posso deixar de abrir um parêntesis especial pra comentar a tristeza de ter perdido, infelizmente, a gravação do último “Show do Fluzão”, segunda-feira passada, aqui em Friburgo, que contou com a presença marcante de dois dos maiores ícones-tricolores-de-todos-os-tempos, Deley e Assis.  Em virtude do horário, nem sequer pude participar do almoço com as estrelas, junto à dupla de craques e demais personalidades tricolores da cidade. Fazer o quê, alguém tem que trabalhar neste país – tive que me contentar em assistir ao programa pela TV.  Sem contar que meus planos pra uma foto clássica, ao lado dos dois, o ataque dos sonhos, que iria virar pôster aqui na sala de casa, babau, já era – vou ter mesmo que aguardar outra oportunidade.

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“Muito obrigado por tudo o que fez pelo Fluzão!” – eu já havia dito tais palavras pro Deley, assim meio-que-timidamente, e tal, num dos treinos do Friburguense, alguns anos atrás, no tempo em que ele jogou por aqui, já em final de carreira.  O Deley olhou na direção do alambrado, como que tentando visualizar o autor do comentário, o que conseguiu somente quando gritei “Nensee!” e fiz o sinal de positivo, então sorriu e continuou com o seu treinamento.

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Mas teria sido a primeira vez em que eu me encontraria com o Assis – “Eu te perdôo, Assis”.  Sim, pessoal, teria sido esta, muito provavelmente, a primeira frase que eu diria pro antigo companheiro de ataque do Washington, eis que andei remoendo, durante um bom tempo, um sentimento de decepção profunda para com o Assis, por conta de um comentário seu, tão infeliz quanto surpreendente, feito num programa esportivo, desses de fim-de-noite, tempos atrás, em uma emissora paranaense, o de que não havia sido o Fluminense o principal clube de toda sua trajetória como jogador de futebol – um absurdo, não apenas pelo que o Assis conquistou como jogador do Flu, mas também e principalmente por tudo o que ele deixava transparecer desde sempre em suas entrevistas, o modo como ele era tratado no Laranjal, como se relacionava com o clube, com os próprios torcedores, enfim. 

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Pois o Assis declarou, mais tarde, arrepender-se de ter dado tal declaração estapafúrdia – e pronto, já passou, está perdoado, não se fala mais nisso.  Eu perdôo o Assis, por ter declarado outros amores bandidos, assim como perdôo o Riva, que raramente fala bem do Fluminense, mas jogou muita bola, minhanossasenhorinha, muita bola mesmo, com a camisa tricolor.  Há outros exemplos, como o próprio Branco e mesmo o Edinho, que, no final de suas respectivas carreiras, ainda que se declarando tricolores apaixonados, andaram envergando panos-de-chão alienígenas, da pior espécie.  Pois estão todos perdoados - craques têm o meu perdão, o meu agradecimento sincero, eterno.  Eu não perdôo são os perebas.

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Deley e Assis, mil novecentos e oitenta e quatro - eles dentro do campo, eu exatamente atrás do gol adversário, junto de meu pai e de meu irmão, ao lado de milhares de outros tricolores, irmãos-por-tabela, todos juntos, vamos, pra frente, Fluzão, rumo ao bi.  A alegria daquele dia foi indescritível, até hoje ficamos emocionados ao relembrarmos o Negão parando no ar, o Gringo torcendo a coluna, a pelota estufando o barbante, o cheiro de talco invadindo novamente nossas narinas, os abraços anônimos, a gritaria ensandecida, a comemoração incontida na saída do Maraca, a carreata no domingo seguinte, parando a cidade, parando o país, parando o mundo.  Coisa linda, linda, linda. Obrigado, Assis, meu carrasco.  Obrigado, Deley, meu maestro.

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A dica ROCKFLU da semana é simples, é rápida, é rasteira, é necessária: esqueçam esse tal Tom Bence, hein! - não serve nem pra trilha sonora de elevador.


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