"O que não conheço, não existe” é uma das mais famosas frases cunhadas por Paulo Francis. Crítico cultural contundente, colecionava rótulos tão diversos quanto aparentemente excludentes – era provocativo, implicante, sarcástico, agressivo, contraditório, mas também generoso, humanista, original, franco, veemente, teatral, engraçadíssimo, genial. Como intelectual e jornalista, certamente um dos maiores expoentes de sua geração. Um ícone pop, em seus últimos anos, com suas tiradas de fim de noite, no Jornal da Globo, sua caraça inconfundível exposta no vídeo, a expressão sempre algo debochada, não obstante os temas em geral sérios, com aqueles óculos-de-fundo-de-garrafa, ao vivo e a cores, direto do que chamava, exageros à parte, de Capital do Mundo. Transformou-se numa lenda.
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Pois, até o final de sua vida – Francis faleceu há alguns anos –, o conceituado jornalista brasileiro acreditava que sua idéia era adequada, correta, perfeita. Repetia a frase freqüentemente, com a força de seu humor ácido, característico, ao tecer comentários acerca de quaisquer assuntos que não lhe agradassem. Mas a verdade, ao que parece, é que o mestre estava mesmo, como sempre desconfiei, completamente equivocado.
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Não há um único tricolor na face da Terra, um único torcedor de qualquer time de futebol deste país, que acompanhe razoavelmente o noticiário esportivo, que não conheça figuras como Paulo Morsa, Renato Maurício Prado, Juca Kfouri, Milton Neves, Paulo Stein, José Roberto Wright, Jorge Kajuru, Fernando Calazans, Flávio Prado, Telmo Zanini, Márcio Guedes, Marcelo Damato, Luís Carlos Júnior, Galvão Bueno, Alex Escobar, alguns outros poucos que a memória varreu momentaneamente pro canto da sala. São os ditos comentaristas, os donos da verdade desportiva da nação, os arautos da comunicação futebolística – essa turma não é mole, não, pessoal, eles simplesmente se acham, ainda mais quando botam um terninho manjado aqui, uma gravatinha de gosto duvidoso ali, uma suposta fachada de respeitabilidade, e pronto, incrível!, já estão irremediavelmente podres, estragados, um nojo só.
Usam a força de seus meios de expressão – tevês, rádios, jornais, internet – pra disseminarem suas opiniões, seus pontos de vista via de regra raquíticos, sobre futebol e outros esportes, em geral recheados de recalques, sob a capa de imparcialidades fingidas, de bairrismos condenáveis, de preferências clubísticas mal disfarçadas, meros palpites travestidos de testemunhos da Verdade Absoluta.
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É puro chutômetro – posam de expertos, mas não passam de profetas enrustidos, ávidos por fazer a cabeça do torcedor desavisado com suas revelações bíblicas, suas projeções quase sempre furadas, baseadas em análises estapafúrdias, em imagens em slow motion, captadas de ângulos impossíveis, em scouts batizados, conseguindo, por vezes, a proeza de distorcer mesmo o óbvio. É muita abobrinha junta, esses caras simplesmente não existem – ou pelo menos não deveriam existir.
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Pois pode ser mesmo que não existam, mas parecem incomodar bastante, eis que, a julgar pelo que se observa nas seções de cartas dos diários esportivos, nos fóruns espalhados pela internet, mesmo através de torcedores anônimos, nos estádios e nos botecos da vida, as opiniões desse pessoal costumam fazer um estrago danado de grande, na saúde da torcida brasileira. Não raro, vemos torcedores de todos os clubes vociferando impropérios impublicáveis contra os absurdos proferidos por essa turma. Falam besteira a torto e a direito, apontam o ventilador pra tudo que é lado, indistintamente – arbitragem, escalações dos times, tática, preparação física, tudo o que envolve as atividades do mundo da bola, enfim. Mas parecem ter uma propensão sórdida, encruada, de apontar o arsenal antiaéreo, as armas mais mortíferas, as críticas mais ferozes, as análises mais debochadas, justamente na direção do nosso time das três cores que traduzem tradição, causando – e muitas vezes sequer nos damos conta disso, hein – danos terríveis ao valor agregado de nossa marca centenária.
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Aqui no Torcida Tricolor, mesmo, há algumas semanas, houve grande discussão acerca do tema, em nosso fórum livre, posts indignados, reclamando do festival habitual de sandices ditas numa determinada mesa-redonda, dessas de domingos à noite, na TV – todo mundo coberto de razão: é mesmo histórica a má vontade desses analistas para com o Fluminense Football Club. Muito se especulou sobre os motivos dessa predisposição contrária ao Fluzão, sem que se tenha chegado a qualquer solução definitiva. Nossas origens aristocráticas, ou mesmo nosso pioneirismo no esporte, talvez possam, quem sabe, atrair invejas seculares. Os anos irlandeses, no recente período negro, que tiveram seu início marcado pelo episódio vergonhoso do espocar de champanhes e desembocaram num retorno meio-calabresa-meio-mozarela à elite, podem ter contribuído pra reforçar essa tendência. Ou simplesmente não gostam do charme de nossas cores, de nossa fidalguia explícita, de nosso jeito, de nosso cheiro, como saber com certeza? De toda maneira, pouco importam as origens, o ódio alheio está aí, mesmo, batendo à nossa porta, estridentemente. Só não ouve quem não quer – o Fluminense, na maior parte do tempo, mais parece uma ilha que um clube de futebol, cercado de comentários idiotas por todos os lados, uma coisa impressionante.
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Pois esse ódio ao Flu nunca me surpreendeu – aprendi a conviver com esse (res)sentimento desde muito cedo, eis que tive meu primeiro contato imediato com o dito cujo já aos dez anos de idade, ao fixar minha atenção, de menino que sonhara a noite toda com aquele momento, num exemplar do Jornal dos Sports que pendia ao lado da banca de jornais da esquina do prédio onde morava, de manhãzinha, logo ao acordar, os olhos ainda remelentos, cuja manchete em letras pretas, miúdas, sobre o tradicional fundo cor-de-rosa, apresentava o inacreditável texto “Mengo valoriza o título do Flu”. Sim, pessoal, era essa – ou algo bem parecido – a manchete referente à nossa conquista do Carioca de 1973, do day after do dilúvio, do épico Fla-Flu do Manfrini, um dos maiores clássicos até hoje disputados entre as duas equipes, um título histórico, inesquecível, sensacional. E me publicaram uma manchete chinfrim daquelas, dando destaque justo ao adversário – e que soaria até engraçada, não fosse maldosa, não fosse melancólica, não fosse deprimente. Eu lia, relia. Custei a acreditar, em minha inocência infantil, que era aquilo mesmo, que o jornal não era velho, que o mundo não estava louco, que eu estava mesmo acordado. Com a ajuda de meu pai, “é jornal de flamenguistas”, então compreendi – e nunca mais desaprendi.
Pode ser que, no fundo, o propósito desses caras seja o de, como costuma apregoar a turma do marketing, simplesmente medir a segmentação do seu público, visando um melhor posicionamento de mercado, e tal – alimentam falsos bairrismos, apresentam análises propositadamente estapafúrdias, assumem posturas agressivas, perante determinados clubes, apenas como uma tática pseudo-jornalística, no mínimo jeca, numa de aferirem a quantas anda a sua popularidade, a sua audiência. Pode ser que seja – mas eu duvido muito.
Há reações de todo tipo, entre os tricolores, no que se refere ao besteirol barra-pesada dito por esses bons-moços de mau gosto. Alguns se sentem ultrajados, traídos mesmo, quase a nível pessoal, e perdem um tempo precioso, nesses tempos modernos que vivemos, em mandar e-mails indignados para o comentarista, para a emissora, para o patrocinador, pra quem-mais-de-plantão a justa reclamação puder alcançar. Outros procuram evitar determinado canal de televisão em certos horários, trocam a leitura pelo jornal concorrente, percorrem o dial em busca de outras notícias mais agradáveis aos ouvidos. E há alguns outros, mais exaltados, que chegam mesmo a cancelar as assinaturas de TVs a cabo, a deixar de lado o jornal do dia-a-dia, abandonam de vez a resenha noturna de sua rádio preferida, mudam alguns de seus hábitos que lhes são mais caros, somente por causa desse bando de profissionais do chute-de-bico-na-canela. Uns poucos os ignoram.
Tenho, sempre tive, assumida dificuldade em compreender certos comportamentos mais radicais, de torcedores, em relação a essa turma, pois mantenho, no meu caso específico, há anos, sem problemas, uma postura inteiramente blasé no que se refere a esses analistas-de-meia-tigela – o ar descolado, de desbunde total, pareço que não sei, estão sacando?, mais ou menos por aí. Irrito-me, eis que o sangue é grená e o pulso pulsa, esbravejo por alguns instantes, porém retorno rapidamente à calma, à tranqüilidade, como se nada houvesse ocorrido. Às vezes, confesso, em algumas ocasiões, vejam vocês, sou capaz até de dar boas risadas – há alguns bons comediantes, ali, perdidos no meio esportivo, pessoal, podem reparar.
Procuro agir de maneira pragmática, objetiva: não vou deixar de ler o meu jornalzinho predileto, somente por causa de um imbecil qualquer, da seção de esportes. Perder tempo e diversão, cancelando a assinatura da TV a cabo, ainda por cima através daquelas atendentes de telemarketing, com suas vozes mecânicas, sem efeito prático nenhum? Tou fora, nem pensar. E depois, como vou fazer sem minha HBO, sem meu Film&Arts, sem meu Cinemax?
O Velho Chico – o nosso compositor-dublê-de-escritor, não o rio – declarou recentemente, numa entrevista para um jornal catalão, para o lançamento de seu livro “Budapeste”, que vivemos, nas últimas décadas, “um movimento de idiotice globalizada, que vem crescendo perigosamente”. Chico Buarque se referia especificamente à fama boba, vazia, que ele definiu como a sombra do reconhecimento, o interesse generalizado da mídia, e das pessoas em geral, pela forma física de um artista ou por suas atribulações amorosas, em detrimento de análises pertinentes sobre suas obras. Mas deixou, nas entrelinhas, sinais claros de que suas palavras podem – e devem – ser compreendidas num contexto mais abrangente: “a idiotice nos rodeia, eu mesmo tenho medo de virar um idiota”.
Pois eu quero pregar a indiferença, pura e simplesmente, em relação a toda essa idiotice reinante no mundo do futebol. Eu não tou nem aí, eu os ignoro a todos, eu pouco me lixo, eu cago e ando. Solenemente. Paulo Francis que me perdoe, esteja onde estiver, mas eu conheço, sim, todos esses sujeitos – porém, pra mim, todos eles seguem, ainda assim, sem existir de verdade. Como se pertencessem a uma outra realidade, de preferência paralela, sem quaisquer pontos de tangência. Falam mal do Fluzão, sem qualquer critério objetivo, insistentemente, enchendo nosso saquinho tricolor? Pois – xi, atenção, mulheres e crianças, melhor pularem direto pro próximo parágrafo, hein, por favor – a melhor resposta é a de adotarmos, como padrão, o expediente de puxar a descarga e, logo em seguida, abrir a tampa do vaso, pra conferir se a merda foi toda embora – sabem como é, vai que bate um refluxo e eles voltam, convém não facilitar com essa gente. E eu usaria até um outro verbo, que julgo mais apropriado, mas como se trata de um site de família, quero que se explodam todos eles, juntos, em fila indiana, numa suruba em rede, se possível transmitida via satélite.
Não liguem, dêem de ombros, deixem pra lá, não esquentem a cabeça, façam como faço eu, mandem esses manés pro limbo, pro lugar que merecem, que se metam a aporrinhar outras freguesias – ouçam o radinho de pilha em outro horário, mudem de canal, de site, de página de jornal.
Simplesmente esqueçam os disparates desse bando de recalcados – e sejam felizes.
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Pra quem considerava impossível haver qualquer coisa em comum entre o bom-e-velho Fluzão e o nem-tão-velho-mas-tão-bom-quanto roquenrol, o inusitado nome de batismo de uma jam band formada há poucos anos, no estado norte-americano de Massachusetts, parece significar o ponto de convergência, a redenção, o elo perdido – tá lá, na certidão de nascimento do quarteto, não é pilha, não, pessoal: Sonic Flu.
Embora constitua muito mais uma mera curiosidade que propriamente uma dica, pois, a julgar pelo material contido nos bootlegs que recebi, dificilmente a banda terá mais do que os tais regulamentares quinze minutos de fama, a tal da Sonic Flu apresenta uma sonoridade que possui, até, certas qualidades louváveis, alguns arranjos interessantes, um trabalho bacana de guitarra, solos curtos, porém bem encaixados, a percussão funcionando maravilha, numa fusão de ritmos que mistura rock, jazz, blues, folk, mesmo pitadas de funk. Porém, deixa a desejar em determinados quesitos que, pro meu gosto – é sempre bom frisar –, são fundamentais, em se tratando de bandas de roquenrol: falta-lhes um certo peso, principalmente na cozinha, baixo/bateria, e a parte vocal achei um tanto meia-boca. Sem contar que as jams que executam são demasiado longas, coisa pra profissional, pra gente grande fazer – confesso que fiquei na torcida pra algumas delas acabarem o mais rápido possível, pelo amor de Deus, antes que o efeito sonífero atingisse o cérebro e tomasse conta de todo o corpo...
Mas essa banda aparentemente tricolor de coração tem os seus momentos, afinal – os caras mandam, freqüentemente, ótimas covers de “Medicated Goo”, do Traffic, e de “Whipping Post” do Allman Brothers, e têm, pelo menos, três composições próprias que mereceriam, talvez, uma atenção mais caprichada: a jazzy “Bacon”, que apresenta um trabalho fantástico de baixo e bateria, o blues-folk “Titanium Blues”, e um rock cheio de bossa e de fôlego, de mais de dez minutos de duração, pontuado por quebradas de ritmo constantes, certamente a faixa mais pesada que executam em seus shows e, justamente, a que deu o nome à própria banda, “Sonic Flu”.
De todo jeito, é material mais indicado pra fã die hard de Grateful Dead, por exemplo, eu diria – o que não é propriamente o meu caso. Vale dizer, em condições normais de temperatura e pressão, eu jamais a recomendaria a alguém. Mas, tendo um nome bacaninha desses, hein, minha gente, como não conhecer, como não escutar, como não passar a bola adiante?
Tenho tentado, nos últimos dias, acessar o site oficial desses malucos, www.sonicflu.net, em busca de mais informações, porém a página anda direto fora do ar. Consegui, no entanto, um endereço de onde se pode baixar, gratuitamente, uma penca de shows da banda, basta clicar, fuçar, definir as pastas pro download e mandar bala: http://www.archive.org/audio/etreelisting-browse.php?collection=etree&cat=Sonic Flu
Aos interessados, que apontem o mouse e tenham boa sorte!
(Postado por TriFanatico, Março 5, 2008, 9:54 AM)