Ainda que sob os efeitos sinistros de uma forte ressaca, que insistentemente martelava a nuca, reuni forças pra evitar sorver, sábado passado, desde que me levantei, a todo custo, qualquer espécie de substância líquida – mesmo o cafezinho, hein, que me é sagrado –, obedecendo a um ritual previamente agendado, já tradicional em casos semelhantes, numa de secar o pessoal que iria disputar a rodada derradeira da primeira fase da Segundona, que definiria os felizardos a compartilharem conosco a suprema honra de fazerem parte do seleto grupo a disputar uma Terceira Divisão. Não foi nada fácil, pois mantive a linha dura durante todo o dia, mesmo durante e após nossa exibição de gala, frente ao Brasiliense, todos bebericando alguma coisa, eu só no amendoim – com aquele show do Petkovic, I love my Pet, confesso que ralei, não foi mole, não. Mas eu devo ser bom mesmo nisso, pois, de toda a turma que andei agourando, somente uma equipe acabou escapando da degola – o sacrifício valeu a pena, afinal.
Uma partida, dentre tantas que eram disputadas no mesmíssimo horário, chamava a minha atenção de modo especial, fazendo com que, de certa forma, eu estivesse nadando um pouco contra a corrente tricolor – o ideal, pra mim, entre Paulista e Bahia, era que ambos caíssem no abismo, juntos, de braços dados, com um empatezinho redentor, a depender ainda de uma combinação bastante razoável de resultados. Porém, a ter que escolher entre um ou outro, jamais titubeei um único instante – na contramão da maioria do pensamento tricolor, que andou, em função dos recentes acontecimentos da final da Copa do Brasil, secando direto o expresso de Jundiaí, minha predileção era mesmo pela queda do esquadrão da Boa Terra.
Minha torcida jamais teve a ver com o clube baiano, especificamente, na verdade – poderia ser qualquer outro que estivesse em situação idêntica. Sempre nutri, pelo Bahia, aliás, uma certa simpatia, em grande parte – não bastasse eles próprios terem lá o seu rival rubro-negro, local – devido ao meu aposentado time de botões com o escudo da equipe-de-três-cores baiana, cujo ataque demolidor respondia por uma dupla fulminante de artilheiros, inesquecível, Dadá Maravilha e Beijoca. Eram gols a rodo, a torto e a direito. Importante – meu critério primava pela objetividade – era garantir, no entanto, que um outro membro da galeria dos ex-campeões brasileiros, não mais apenas o Fluminense Football Club, sofresse o infortúnio de descer ao degrau de baixo. Pois agora já são dois a encarar uma Terceirona pela rabeira – e outros virão, tenham a certeza. Que esperem, pois a hora vai chegar. Pode tardar, mas não vai falhar.
Até uma semana atrás, a Terceira Divisão era vista, por todos, como uma espécie de dimensão paralela, uma realidade alternativa, inatingível, inalcançável, impossível de acontecer – o Fluminense de 1999 pairava como um escárnio, uma exceção à regra, a única exceção à regra. Não era possível que alguém mais, de peso, chegasse a cair e a disputar uma aberração como aquela. Ninguém levava fé, nem que a própria nave tricolor pudesse jamais voltar àquele planeta distante – mesmo nós, que sofremos na pele as conseqüências daquela queda vertiginosa dos anos negros, considerávamos tal hipótese, simplesmente, algo além da imaginação. Um raio jamais cairia duas vezes no mesmo lugar, dizia o ditado – e todos acreditávamos, piamente. Pois a queda do Bahia, sendo ainda coadjuvada por duas equipes igualmente habituées do grupo de elite do futebol brasileiro, Criciúma e Vitória, fez escancarar a dura realidade – esse negócio pega. Cair e coçar, minha gente, na atual configuração do futebol tupiniquim, com esse samba do crioulo doido de, todo ano a mesma ladainha, descem-quatro-sobem-quatro, é só começar.
Particularmente, tenho boas lembranças da Terceirona – a gente se aporrinha um pouco, claro, senão não tem graça, mas afinal se diverte. Corremos desengonçados, aos trancos e barrancos, por campos descascados, de várzea, de areia e barro, de pedras e lama, de norte a sul do país, os estádios ainda assim apinhados de gente tricolor, bonito de ver e de ouvir. Clássicos inusitados, contra times de bombeiros, contra centroavantes nanicos e barrigudos, contra beques de roça, cascudos, botinudos, contra arqueiros bisonhos, improváveis, leiterias sobrenaturais. Vitórias suadas, nos campos e no tapetão, necessárias, cruciais, salvadoras. Fizemos alguns dos gols possíveis, tomamos todos os impossíveis. O jogo da chuva, numa geral alagada, o Maracanã em escombros, em intermináveis obras. Tudo sob olhares tetracampeões, atentos, abnegadamente cuidadosos. Perrengues históricos, nos jogos do Flu por outras cidades, por outros estados, Bye-Bye-Brazil. A busca ferrenha por um SporTV amigo, em algum boteco, em qualquer lugar – cheguei a assistir a Flu x Americano num night club, taí o meu camarada Lupe que não me deixa mentir, sentado em frente à pista de dança, com música ao vivo, as luzes estroboscópicas refletidas nas imagens da TV sem som, um sujeito no palco ao lado, passando o som, coverizando Tim Maia, “Me dê motivo...pra ir embora...”. Momentos, enfim, de surrealismo lírico – o Fluminense era um doente terminal, essa é que é a verdade, totalmente desenganado pelos médicos, e o modo como salvamos o nosso ente querido, todos juntos, vamos!, foi mesmo bonito pacas, no peito e na raça, uma pintura, bate um orgulho danado de grande, êita nós.
Jamais esquecerei a festa que fizemos, aqui em Friburgo, pra comemorar o título da Terceira Divisão. Diversas ruas fechadas, o foguetório nos trinques, a noite em dia, centenas de veículos num buzinaço sublime, divino, uma carreata que marcou época – ainda não repetimos outra daquelas, nem mesmo a deste ano, a do festejado Carioca de 2005, foi tão bacana. Durante bom tempo, circulei com um adesivo grudado na lateral de meu velho Mouse – um Ford Ka porreta –, de saudosa memória: “Fluzão Rumo Ao Tetra 1970-1984-1999-????”. Pois troquei de carro, lá se foi o adesivo – preciso mandar fazer outro daquele! Os adversários, fingindo desbunde, babavam de inveja – achavam que o nosso atoleiro seria eterno, que estávamos acabados, mortinhos da Silva. Pois erraram feio. Transformamos o que seria supostamente motivo de vergonha – um título de terceira – num marco histórico, num símbolo que definiu, agora tenho mais certeza ainda do que antes, as bases pro nosso renascimento em grande estilo, de primeiríssima.
E eu tenho cá minhas dúvidas se Bahia, Vitória e Criciúma terão fôlego pra resistirem aos maus tratos que sofrerão pela frente – periga pagarem, os três, uma bela duma etapa, a vagarem desnorteados, sem qualquer rumo, pelos porões desportivos da nação, anos a fio, passando a sacolinha, de baldeação em baldeação, numa de tentar sobreviver ao tranco, que, sabemos bem, hein, é brabo. Pode ser que os três retornem rapidamente à elite do futebol brasileiro, sem traumas ou seqüelas – mas o que eu duvido mesmo é que consigam realizar a proeza de transformarem a Terceirona numa coisa chique, num produto fino, de delikatessen, como fizemos nós. Nem mesmo as equipes da Bahia, que possuem grande contingente de torcedores, parecem ter tamanho potencial – o torneio permanecerá, muito provavelmente, com seu caráter marginal, restrito aos pés-de-página do noticiário esportivo, ignorado, esquecido, acumulando poeira nas prateleiras. E difícil, mesmo, de verdade, vai ser conseguirem convencer o Parreira a dar uma mãozinha, como fez conosco, mas, enfim, quem sabe...
Que tenham boa sorte e que, principalmente, não se desesperem – não vai demorar nada, uns poucos anos, quando muito, e terão outras companhias ilustres por lá.
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INDIGENOUS
Como é que é – índio tocando roquenrol? Pois é isso mesmo, pessoal – ao que parece, já vai longe o tempo em que os nossos brothers indígenas queriam saber só de apito...
Formada pelos irmãos Mato Nanji (vocal,guitarra), Pte (baixo), sua irmã Wandbi (bateria) e o primo Horse (percussão), descendentes dos índios Sioux norte-americanos, que, ainda hoje, mesmo após dez anos de estrada, permanecem residindo na reserva indígena de Yankton, no Dakota do Sul, a banda possui sólida carreira no circuito alternativo de blues e rock’n’roll dos States, arregimentando fãs por toda parte. Mesmo no Brasil, ainda que jamais tenham sido lançados oficialmente por aqui, possuem admiradores fiéis – dia desses mesmo, fuçando, de bobeira, as comunidades orkutianas deste nosso Brasil varonil, dei de cara com uma dedicada exclusivamente aos caras, criada em agosto último, por gente que parece realmente entender do riscado: www.orkut.com/Community.aspx?cmm=4013937. Já postei um recado por lá, numa de tentar arrumar uns bootlegs a mais – quem sabe, acabo conseguindo aumentar um pouco minha coleção, com mais algumas pérolas índias.
Do primeiro álbum, o raro “Awake”, de 95, lançado de modo independente, ao mais recente, o EP “Long Way Home”, que viu a luz do dia no início deste ano, o Indigenous contabiliza nada mais, nada menos, que dez lançamentos oficiais – média arredondada, azeitada, de um por ano –, mantendo a qualidade dos trabalhos lá em cima, demonstrando um vigor artístico de fazer inveja a muito peso-pesado que anda solto por aí, pelas paradas de sucesso da vida, marrento toda vida, mas com uma bola murcha de dar dó.
As influências da banda vão desde os óbvios Stevie Ray Vaughan e Jimi Hendrix – impossível não perceber, logo de cara, na pegada de Mato Nanji, um mix do estilão desses dois monstros sagrados do roquenrol –, até passagens que remetem a Buddy Guy, a B. B. King, mesmo a Led Zeppelin, numa receita deliciosa que adiciona, vez ou outra, pitadas fortes do tempero nativo da percussão indígena da gema. O resultado fica muito, mas muito bacana mesmo – eu sinceramente recomendo a todos.
Jamais vou me esquecer da primeira vez em que botei pra rolar, em minha vitrolinha, o primeiro Indigenous que me caiu nas mãos, anos atrás, o incendiário “Live At Pachyderm Studios”, de 99 – foi amor à primeira audição. Posso indicar, ainda, aos iniciantes, outras três belezuras dessa tribo roqueira: “Things We Do”(1998), “Blues From The Sky”(1997) e “Indigenous”(2003). Eu garanto, é bater e valer – mas, na dúvida, na boa, hein, pessoal, melhor correrem atrás de todos eles, logo duma vez, numa de garantir o sorriso por vários meses, e tal.
A página oficial da banda, www.indigenousrocks.com, no entanto, deixa a desejar, a meu ver, em termos de conteúdo – há pouca informação, e sequer uma discografia completa, dos caras. Mas constitui tarefa relativamente fácil, a de se encontrar informações sobre a banda, mesmo álbuns indígenas, pela rede, e até faixas esparsas, avulsas, disponíveis para download gratuito – o site da Bandit Blues Radio, por exemplo, oferece cerca de dez faixas dos caras, regularmente, que podem ser baixadas de sua página inteiramente dedicada a Mato Nanji & Cia., www.banditbluesradio.com/indigenous/downloads.htm.