“Muito embora tenha sido Eberhard Sensucht a postular, em seu opus magnum “Teoria geral dos sentimentos”, que o desejo poderia induzir deformações no campo gravitacional, foi Gilberto Henk quem comprovou experimentalmente tal hipótese, através da utilização de telemetria laser de alta resolução – verificou-se que o desejo que um corpo sente por outro pode realmente fazer diminuir a distância que os separa. Os deslocamentos são, em geral, da ordem de 3 a 5 mícrons, podendo, no entanto, atingir valores bem mais elevados, em casos raros, quando o desejo apresenta-se excepcionalmente intenso e, ao mesmo tempo, a massa do objeto desejado é reduzida.”
O excerto acima foi retirado da HQ “A atração entre os corpos”, publicada no livro “A grande enciclopédia do conhecimento obsoleto” (Edições Devir Ltda., Portugal, 2004, 1ª edição), quarto volume da coleção “A pior banda do mundo”, principal obra do prolífico autor português José Carlos Fernandes. Formada por histórias curtas, de duas páginas apenas, e que funcionam perfeitamente de modo independente, a série, quando observada em conjunto, é capaz de traçar, de maneira magistral, uma radiografia completa da vida de um grupo de personagens que transitam em uma cidade desconhecida e misteriosa, enquanto acompanhamos sucessões de acontecimentos tão triviais quanto bizarros.
A tal “pior banda”, de intenções supostamente jazzísticas, formada por Sebastian Zorn (sax tenor), Idálio Alzheimer (piano), Ignácio Kagel (baixo) e Anatole Kopek (bateria), ensaia há trinta anos, no porão de uma antiga alfaiataria, sem nunca ter conseguido apresentar-se ao vivo – os malucos, na verdade, mal conseguem concluir uma única canção! Pois do caos sonoro produzido por esses músicos sem qualquer aptidão, emerge um mundo com centenas de personagens difusos, que exalam pelos poros um tipo de melancolia indefinível, na maioria das vezes envoltos em situações estapafúrdias, encucadíssimos com elocubrações inúteis, mentes e corpos esmagados por preocupações fúteis, irrisórias.
Não se deve imaginar, no entanto, que esse estranho universo do José Carlos esteja ancorado apenas em águas rasas, meramente ficcionais – suas entrelinhas trazem embutidas, via de regra, verdadeiras tsunamis de apreciações desfavoráveis, implacáveis, em relação ao mundo em que vivemos, ao modo como vivemos desde sempre, embora sejam observações algo subliminares, meio-que-disfarçadas, sob o manto de um nonsense absurdo, regado a doses generosas de um vocabulário pseudo-científico que, aliado a seu humor finamente cáustico, ajudam a reforçar sobremaneira o tom crítico, atemporal.
A série, premiadíssima em inúmeros países, nos apresenta um vastíssimo mosaico de situações hilárias, vivenciadas em instituições bizarras, por personagens completamente aturdidos, fazendo uso por vezes de gadgets as mais inverossímeis: o detector de mensagens satânicas em discos de vinil de Carol Lugosi, funcionário do Departamento de Criptoacústica do Laboratório Nacional de Histerese Social e Psicologia de Massas; a Fundação para o Recuo da Ciência; a Lei da Conservação do Sono Total; o Partido Popular Idiossincrático; Leopoldo Nazca, diretor da Biblioteca Municipal, sempre bolado com o insustentável peso das palavras; a Indústria Nacional de Lipo-Sucção; o Centro de Estudos Irrisórios; Tomás Flugelhorn, o colecionador de coincidências; Simeon Lichtenstein, pobre-diabo que sofre de irrealidade crônica, um mal incurável; a Academia de Ciências Nefelibáticas; os ataques decisivos do mortífero vírus da Lógica; o Parque de Perversões Mengele; a Escola Superior de Falácia e Diletância; Tobias Ghoulli-Houri, o grande declamador de leis matemáticas e físicas; o incrível experimento com chimpanzés, iniciado por Ildefonso Wretzky, demonstrando sua teoria de que símios são capazes, sim, de produzir verdadeiros best-sellers da literatura, desde que lhes seja dado tempo para tal e, evidentemente, suprimentos ilimitados de tinta e de papel; Roberto Rosz, diretor do Museu Nacional do Acessório e do Irrelevante; e por aí vamos nós: a desconcertante galeria de José Carlos Fernandes segue adiante, indefinidamente.
Não bastasse a atmosfera algo kafkiana de sua obra – e os desenhos, em tom sépia, parecem reforçar seu caráter onírico, potencializando sua dramaticidade –, encontram-se, também ali, escancaradas, diversas referências filosóficas, literárias, arquitetônicas, cinematográficas e musicais, a que o próprio autor define como sendo seu “acerto de contas”: de Jorge Luis Borges, sua maior influência, a Stan Getz, Fernandes consegue demonstrar invejável bagagem cultural, linkando com absoluta maestria citações a personalidades tão geniais quanto aparentemente desconexas, como Fernando Pessoa, Alain Resnais, Ben Katchor, John Coltrane, Luis Buñuel, Duke Ellington, Milan Kundera, outros mais.
Pois bem, trata-se de literatura de primeiríssima qualidade, o cara é um craque, minha gente – e eu sou mesmo suspeito, sou fã de carteirinha do Zé.
Mas voltemos à teoria geral dos sentimentos e ao tal aparelho de telemetria laser, temas fernandianos que abriram o presente texto: fiz contato por email com o tal do Gilberto Henk, ano passado, e, pra minha surpresa, pouco tempo depois, o maluco presenteou-me com um protótipo desses, recém-desenvolvido, o que foi mesmo muito bacana da parte dele. Em contrapartida, prometi colaborar com seu experimento científico, efetuando medições aleatórias com o equipamento, aqui e ali. Devo anotar tudo o que for possível, e produzir gráficos detalhados, ao final do ano – quem sabe, pessoal, com essa brincadeira, não acabo beliscando um premiozinho Nobel aí, hein, como coadjuvante, ou ajudante-júnior, e tal...
Pois bem, pelo bem da ciência, eu tenho vivido com o tal personal gravitator, que mais parece um simples relógio, plugado no meu pulso direito, tomando nota das tais medições, a cada situação vivida no cotidiano. Tenho tido, devo registrar, algumas surpresas, com variações e deformações inesperadas em meu campo gravitacional. Semana retrasada, por exemplo, após um dia estressante no trampo, ao avistar um copo de chope geladinho no balcão do boteco da esquina, pude perceber um deslocamento da ordem de nada mais, nada menos, 18 mícrons, o que é quase um recorde, e talvez eu tenha produzido, vai saber?, um pequeno terremoto, em algum lugar do Globo!
Porém, como é evidente, eu não poderia deixar de aproveitar esta oportunidade pra fazer do nosso amado Fluminense Football Club o item principal de minha pesquisa científica – tenho assistido a todos os jogos do Fluzão, incluindo meros treinos e mesmo videotapes, em casa, em botecos ou nos estádios, durante todo este ano, de posse de uma indefectível prancheta, onde anoto, criteriosamente, cada variação telemétrica que seja digna de menção, que se apresente útil ou interessante. Estive no Maraca, em Volta Redonda, em São Januário, nas Laranjeiras, mesmo em Xerém, em nosso Centro de Treinamentos da Garotada. Assinei a Sky, ferrei o pacote do Brasileirão, varei madrugadas adentro, assistindo a clássicos Band. Esforços conjugados, em busca de mais e mais imagens do Fluzão de hoje, do Fluzão de ontem, do Fluzão de amanhã. O resultado vinha mostrando-se plenamente satisfatório, até então – máximo de 21 mícrons, registrados no momento da bola estufando a rede, após a fulminante cabeçada de nuca do Antônio Carlos, na final do Carioca; mínimo de 0,3 mícrons, no momento exato do apito final da frustrante decisão da Copa do Brasil. Tudo normalíssimo, enfim, êita aparelhinho porreta.
Mas o que aconteceu durante o massacre de domingo último, Fortaleza 5 x 1 Fluminense, deixou-me deveras assustado: o diabo do protótipo não assinalou qualquer variação, durante os noventa minutos de jogo, mais os acréscimos e o intervalo. Nem sequer um único, um mísero mícron – nem mesmo quando fizemos o nosso golzinho de honra! Gol do Fortaleza, zero mícrons na agulha. Novo gol do Fortaleza? Um, dois, três, zero outra vez. Adriano Magrão dispara pela ponta direita, tropeçando em seus próprios pés – zero, zero, zero. Será possível que, a exemplo do que ocorreu com o Fluzão nesta reta final de Brasileiro, tenha simplesmente acabado a pilha do aparelhinho? Sei não. Tou – de verdade, gente – é morrendo de medo de, sei lá como, ter detonado um equipamento tão caro...
E o patrão Beto Meyer, anteontem, ainda me convida pra encarar São Januário de carona, domingo que vem: “vamos lá, Flu X Juventude pode ser o jogo da Libertadores, o time precisa da nossa torcida nesse momento, etc e tal”. Muito nobre, meu caro Beto – mas ando sem condições psicológicas pra encarar esse tipo de empreitada, a essas alturas. Na boa, se não foi o protótipo, então fui eu que pifei, mermãozim – quatro derrotas seguidas, pra times ridículos, adeus a dois títulos importantes no intervalo de apenas dez dias, quem merece isso? Pode ser falta de tesão tricolor mesmo, de minha parte, enfim. E tenho medo, muito medo – e, no meu caso, o medo anda dando de goleada na esperança, hein, que, vade retro!, ainda por cima é verde...
Na verdade, numa de buscar uma recuperação, ‘tou pensando em sequer assistir ao jogo, nem mesmo via PPV, sequer acompanhar via internet – pode ter ocorrido sobrecarga dos circuitos do aparelho, ou certa pane em minha aura gravitacional, ou alguma coisa assim, eu não entendo muito bem dessa parte teórica. E um descanso, quem sabe, pode acabar fazendo bem.
Sem falar no risco de eu acabar tascando, a certa altura, lá do alambrado de São Janu, o tal protótipo de telemetria laser na cabeça do desgraçado do Tiuí...