Querido Papai Noel,
Não é que eu esteja sendo inconveniente, pois deste ano não posso mesmo reclamar, eis que não me faltaram, em momento algum, quaisquer dos elementos básicos que compõem, como todo mundo sabe, a essência da existência humana – o peito cheio de ar, a barriga sem roncar, um cobertorzinho-de-orelhas do lado, a cabeça pelo menos com um cadim de ilusões bacaninhas, quem precisa de mais do que isso, afinal? Mas é que desconfio, cá com meus botões perolados, que houve um equívoco, de sua parte, em relação ao pedido que constava de minha cartinha do ano passado – claro que o sr. se lembra, eu solicitei, com todas as letras, apenas e tão somente, “um ano de ouro para o Tricolor”. O que, pra minha surpresa, acabou não acontecendo.
Quero deixar bem claro que cumpri minha parte do trato, religiosamente – tive comportamento exemplar durante todo o ano, em casa e na esquina, estudando ou trabalhando, no trânsito, nos botecos, na academia. Não quebrei meus brinquedos, não sujei as paredes, não fiz pirraça. Escovei os dentes todos os dias, depois das refeições e antes de dormir. Penteei os cabelos para o lado, usei cotonetes, lavei atrás das orelhas, mantive a barba feita, e bem escanhoada. Falei apenas os palavrões absolutamente necessários. Usei desodorante, loção pós-barba, xampu anti-caspa, cremes dentais com flúor. Mantive as unhas dos pés e das mãos curtas e asseadas. Não tive discussões com minha mulher, com meus pais, com meu irmão, com quaisquer dos meus amigos ou conhecidos, mesmo vizinhos, ainda que vascaínos ou rubro-negros dos mais pentelhos. Atravessei 2005 sem sair no tapa sequer uma única vez, no futebol das quintas à noite, um verdadeiro recorde! Eu me esforcei muita, muita coisa mesmo.
Bem sei, e foi meu brother Arnaldo Antunes quem me bateu a real, que essa vida contém cenas explícitas de tédio, em doses cavalares, nos parcos intervalos da emoção. Mas, na boa, hein, precisava ser tanto tédio assim, pra tão pouca emoção? Um titulozinho só, assim meio que mixuruca, e tal, e tanta coisa bacana, tanta coisa importante de verdade, escapando pelo ralo, vazando por entre nossos dedos? Cheguei a tatear uma conquista nacional, na palma de minha mão direita! Na esquerda, uma vaga garantida pra Libertadores! Pois pisquei os olhos, e não havia mais nada lá. Eu queria um ano de ouro – e o sr. me deu um ano de lata. Ou, vá lá, de bronze, eis que o Carioca tem, sim, relativa importância no contexto das rivalidades locais, e hoje eu ‘tou de bom humor... mas no máximo, hein, o ano foi no máximo de bronze. E eu queria era um ourozinho, né...
Mas, como eu ia dizendo, o sr. não teria, por acaso, meu caro Santa Claus, rou, rou, rou, confundido um pouco as coisas? Cheque lá no envelope, onde consta o remetente, por favor – veja, eu não moro em São Paulo! Sou de Nova Friburgo, RJ. Erre, jota. Rio de Janeiro, quarenta graus, praia e sol, Maracanã, futebol, hello! Eu me referi explicitamente ao “Tricolor”, ao único “Tricolor” da face da Terra, achei que não havia necessidade de maiores esclarecimentos – afinal, o mestre Nélson Rodrigues nos ensinou a todos, desde há muito, que os demais, todos eles, não são “tricolores”, são apenas clubes de três cores. Eu falei de Laranjeiras, de Álvaro Chaves, de Xerém. De Fluminense Football Club. O óbvio ululante! – e o sr. foi capaz de cometer um sacrilégio geográfico-futebolístico de primeira grandeza! Concedeu o tal “ano de ouro” a um outro clube de três cores, pseudotricolor, um erro de quatrocentos e tantos quilômetros, lamentável, gravíssimo.
Eu devia era acionar o PROCON de uma vez, mas resolvi dar nova chance ao sr. Desta vez, no entanto, serei mais direto, preste bastante atenção, hein, pois vou repetir o pedido do ano passado com alguns bônus, a título de juros e correção – EU QUERO UM ANO DE OURO PRO MEU FLUZÃO! EU QUERO O BI-CARIOCA! EU QUERO O TETRA-BRASILEIRO! EU QUERO A COPA DO BRASIL! EU QUERO A SULAMERICANA! E EU QUERO TUDO ISSO INVICTO, HEIN, I-N-V-I-C-T-O!
Amor, harmonia, paz pra humanidade? Tá bom, boa idéia, pode incluir no pacote.
Mas nem adianta tentar barganhar, eu não faço por menos – não se esqueça de que o sr. me deve isso tudo, ainda mais depois do vacilo deste ano...
Até o ano que vem, hein, e lembranças às renas.
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Buddy Guy
“Eu, GUSTAVO VALLADARES, tricolor de coração, brasileiro, casado, servidor público, filho do seu Benício e da dona Neuza, residente e domiciliado na cidade de Nova Friburgo/RJ, venho pelo presente instrumento designar o Sr. SERGIO VINICIUS BACELLAR DUARTE, igualmente tricolor de coração, brasileiro, solteiro-mas-quase-casado-com-a-Silvinha, economista, filho do seu Sergio e da dona Duleina, residente e domiciliado na Cidade Maravilhosa/RJ, como meu bastante PROCURADOR ROCK’N’ROLL para o fim específico de representar-me dignamente durante a apresentação carioca da lenda-viva BUDDY GUY, em show a realizar-se nas dependências do Claro Hall, Barra da Tijuca, devendo praticar todos os atos que forem de interesse do outorgante, tais como saudar e adquirir autógrafos do Mestre do Blues, tirar fotografias, tanto em meio tradicional como digital, apertar suas mãos, dar abraços, cumprimentar efusivamente ou apenas com sorrisos, dar tapinhas nas costas, acenar, recolher testemunhos e declarações emocionadas e emocionantes de outros fãs presentes ao show, subir no palco e dedilhar sua guitarra, fugir dos seguranças, encher a cara e brindar a cada solo, e tudo o mais, enfim, que se fizer necessário para o fiel cumprimento deste mandato, podendo, ainda, substabelecer, total ou parcialmente, desde que o outorgado consiga encontrar substituto tricolor e roqueiro à altura. Esta procuração é válida somente para os fins a que se destina. Nova Friburgo, novembro de 2005.”
Após um intervalo de três anos, o mestre do blues estava de volta ao Brasil, para uma turnê de uma semana, com apresentações agendadas em Porto Alegre, em São Paulo e no Rio de Janeiro, e eu, por força de outros compromissos, sem poder comparecer a nenhuma delas, numa sinuca de bico – já havia perdido os shows do cara, de três anos atrás, por motivo semelhante, e era duro ter que encarar a realidade, nua e crua, a de Mr. Buddy Guy estar ao meu alcance e passar batido uma vez mais, eu não me conformava...
Eu não me conformei – aproveitei que meu camarada Serginho iria ao show do Rio, e mandei ver, bati um fio pro maluco, ele topou representar-me dignamente, e então tasquei-lhe uma procuração rock’n’roll. Pronto, tudo resolvido: juridicamente, pelo menos, ufa!, eu estive lá!
Vai, Serginho, então faz logo o serviço completo duma vez: “Num Claro Hall inexplicavelmente a meia-bomba, cerca de duas mil pessoas puderam conferir o vigor de um senhor de sessenta e nove anos, pra quem o tempo parece não somente não passar, como torná-lo cada dia melhor! Após o lançamento de mais um álbum inédito, o altamente recomendável ‘Bring ‘Em In’ com participações mais-que-especiais de Carlos Santana, Robert Randolph, Keith Richards e Tracy Chapman, entre outros, o Mestre chegou ao Rio revigorado e disposto a mostrar o porquê de Eric Clapton considerá-lo o maior de todos guitarristas de Blues em atividade, e dos motivos pelos quais o number one Jimi Hendrix ter sempre declarado, abertamente, tê-lo como sua maior influência. Uma hora e cinqüenta minutos de puro prazer, êxtase e mesmo perplexidade, pois Buddy e sua maravilhosa banda, com destaques para o sax e o piano, simplesmente arrasaram, ultrapassando todas as expectativas, tocando todo o tempo com largos e sinceros sorrisos de satisfação. Buddy anunciou, logo de cara, que estava ali pra simplesmente tocar ‘o Blues’, e saiu mandando bala em pérolas da velha safra como ‘Damm Right I’ve Got The Blues’, ‘When You Feel Like Rain’ e ainda números em homenagem a John Lee Hooker ( ‘Boom Boom’ ), Eric Clapton ( ‘Strange Brew’, do Cream, em uma versão lenta, de arrepiar ) e ‘Voodoo Child’, do divino Negão, que ficou maravilhosa, com Buddy usando e abusando do efeito wah-wah, tocando com os dentes, com a baqueta, e de costas!!!”
“Do cd novo, ‘What Kind Of Woman Is This’ empolgou o público, os solos incendiários com a assinatura buddyguy, e o tradicional jogo de colocar a galera pra cantar, pra, em seguida, pedir silêncio, e seguir cantando baixinho, sozinho. Mandou ver uma regravação de ‘I’ve Got Dreams To Remember’, outra do álbum de trabalho, que ficou de perder o fôlego, com Buddy cantando quase a cappella; demonstrando todo o sentimento do Blues, arrancou gemidos da guitarra e fez o público de backing-vocals, jogando no ventilador todo o seu domínio de palco, e sua total capacidade de comunicação instantânea com a platéia. Aliás, neste quesito, diga-se, Mestre Guy coloca no bolso muito band leader teen que existe por aí, decerto na carreira equivocada...”
"O ponto alto, como de praxe em suas apresentações, foi quando Buddy tocou ‘Going Down’, clássico dos clássicos dos clássicos – durante sua execução, como que parafraseando o nosso Milton Nascimento da gema, Buddy passeou pela pista do Claro Hall, entre a platéia extasiada, esbanjando simpatia e tocando, e cantando, e solando sua Fender como se bebendo água estivesse, o artista indo onde o povo está, lindo, lindo! Um passeio de quinze minutos, em meio ao espocar de flashes de centenas de máquinas digitais e celulares, diante de fãs enlouquecidos – como eu!”
“No final, ainda dedilhou um trecho curto de ‘Pride And Joy’ de Stevie Ray Vaughan, e finalizou o show, deixando pra sua banda a missão de encerrar a noite, o que ocorreu em alto astral, após a farta e tradicional distribuição de palhetas, disputadas entre urros de satisfação. Em resumo, uma noite de deleite para os fãs do Blues, e para os que gostam de Música com M maiúsculo. Só nos resta esperar pelo retorno do Mestre, pois ele deixou claro, sem dar margem a dúvidas, que, enquanto estiver vivo, manterá acesa a velha chama do Blues. Do Blues com B maiúsculo, como o de Brasil.
"I’ll be back, Brazil, I’ll be back, Rio.”
Beleza, tio Buddy, a gente acredita, viu... e valeu a força, Serginho!
(Postado por Jackelyne, Dezembro 21, 2008, 2:45 PM)