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Do ofício de salvar almas

Por Gustavo Valladares on Março 18,2006

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“Pelo presente, damos as boas-vindas tricolores ao ex-sofredor Carlos Alberto de Matos Silva, que, a partir desta data, passa a ser reconhecido como um cidadão campeão, e, acima de tudo, de bem com a vida. Ser tricolor é ser tudo, simplesmente. É ter virtudes, somente. É olhar para a vida com bons olhos, com os melhores olhos. É dar adeus a sentimentos menores. Ser tricolor é dignificar o passado, honrar o presente e sonhar com um futuro verde, branco e grená, para toda a humanidade. Mesmo os paralelepípedos são capazes de enxergar o óbvio ululante: o tricolor é eterno. Tudo passará. O tricolor não passará jamais”.

 

A última vez aconteceu há pouco mais de um mês, em meados da disputa da Taça Guanabara, no salão de barbeiros que freqüento, durante minha zipada mensal no couro cabeludo.  A frase, emitida em tom seco, surgiu enquanto eu tinha as madeixas sendo levemente aparadas, e via um clipe do Ronnie James Dio, Holy Diver, que rolava na MTV, incrível, às quatro da tarde de um sábado: “não quero nem saber, hein, pra essa porcaria de time, eu não torço mais!”.  Demorei ainda alguns segundos pra perceber, tão absorto estava com a TV, qual era o assunto que rolava por ali, àquela altura.  A barbearia estava cheia, todas as cadeiras ocupadas, muita gente esperando a vez, final de semana por lá não é mole, não, mesmo.  Abandonei o Dio por uns poucos instantes, desviando olhos e ouvidos pro ambiente que me cercava.  Falavam de futebol: “já sofri demais ano passado, esse ano a mesma merda, tá arriscado a cair até no Estadual”, “e ainda ficam com essa palhaçada de time B, parece até que o A é grande coisa”, “perder duas seguidas pra times pequenos do Rio, Nova Iguaçu e Cabofriense, é de matar”, “melhor nem disputar o Brasileiro, isso vai ser uma vergonheira só”, “timezinho vagabundo, diretoriazinha de merda”, e finalmente “tou falando sério, não quero mais saber, não, vou mudar de time, não agüento mais isso”.

 

Eu confesso, fui traído por um sorriso no canto da boca – meu barbeiro Luciano, que participava do animado bate-papo, ele próprio rubro-negro, sacou que eu estava prestando uma atenção danada naquilo tudo, amarradão: “é, tricolor, tá feia a coisa pro nosso lado esse ano outra vez, o Carlinhos ali tá pensando até em mudar de time”.  Na época, o Flu estava com a corda toda, vinha de aplicar duas goleadas acachapantes contra a Portuguesa e o Nova Iguaçu, estávamos mesmo por cima da carne-seca, tranqüilaços, e tal.  Pois botei os olhos no tal Carlinhos e não me contive, mandei logo na lata do sujeito, que eu nem sequer conhecia direito: “amigo, se for o caso, posso tentar te arrumar uma vaguinha de torcedor do Fluzão, hein, havendo indicação de tricolor, o pessoal lá geralmente aprova, fácil, o cadastro de novos torcedores”.  A barbearia explodiu em gargalhadas frenéticas, e mentalmente fiz a contabilidade desportiva dos clientes do recinto: quatro flamenguistas, três tricolores, um vascaíno, rigoroso empate, entre quem estava rindo e quem estava sofrendo.  O desempate, a favor dos rubro-negros, vinha dos barbeiros propriamente ditos, eis que eram dois flamenguistas e um botafoguense.  Mas todos acabaram zoando muito o Carlinhos, enfim, principalmente porque o sujeito acabou entrando de vez na minha, “taí, tricolor, gostei da idéia, pode providenciar, hein, a partir de hoje vou torcer pro Fluminense!”.  Ele devia estar de pilha, mas se deu mal, enfim, pois quem não estava era eu: terminado o corte do cabelo, voei pra casa, imprimi um “Diploma de Boas-Vindas Tricolores” pro maluco, e vazei de volta pra lá, a tempo de fazer a entrega solene do documento, aproveitando as muitas testemunhas presentes.  “Acabo de falar com o Presidente pelo celular, o seu cadastro foi aprovado, meu amigo, meus parabéns!”.  Beleza pura, mais um pra nossa coleção.  Mais uma almazinha recuperada, enfim, salva pelo gongo, pinçada diretamente do lado negro da Força...

 

Sem falsa modéstia, hein, pessoal, eu já até perdi a conta de quantas almas perdidas fui capaz de reabilitar, nestes meus quase quarenta e três anos de militância missionária tricolor.  Muitas mesmo, dúzias e mais dúzias.  Já recuperei vascaínos revoltados, rubro-negros desorientados, botafoguenses desesperados, até mesmo um bangüense desmotivado e um torcedor do São Cristóvão apavorado, vejam que inusitado.  No entanto, lembro-me perfeitamente de alguns casos especiais, ocorridos através dos anos, que considero verdadeiramente emblemáticos: seu José de Arimatéia, por exemplo, capaz de pilotar máquinas de xerox como ninguém, um ex-botafoguense doente, hoje um tricolor plenamente saudável; dona Rosilene Dionísia, por ora meu único feito interestadual, mineira da gema e cantagalense por opção, então cruzeirense, e que havia adotado, no Rio, o Exu como objeto de devoção clubística – hoje, uma tricolor da melhor qualidade, pé-quente e felizaça da vida; dona Valéria Pedretti, uma ex-torcedora fanática do Nápoli, de Careca e Maradona, em virtude de sua descendência italiana, e proprietária de cobiçada coleção de chaveirinhos – são milhares! – de todos os tipos e tamanhos, e que hoje acompanha o Fluzão diariamente, animadíssima, via internet; seu Antônio Carlos Magalhães da Costa, o popular “Magá”, ex-colega da empresa de seguros em que fui escravo por bom tempo, cuja revolta por Eurico Miranda capitalizei em favor das três cores que traduzem tradição; dona Patrícia Aline, assistente social porreta, portadora de excelente gosto musical e certamente uma das mesárias mais competentes do Estado, filha de tricolor legítimo, finalmente de volta às origens; seu Carlos Antônio, colega de curso de inglês, com o qual perdi inteiramente o contato, ex-integrante – eu sou bom mesmo nisso, minha gente – de torcida organizada rival; e por aí segue o rebanho, enfim.  A lista, de que me orgulho pacas, é realmente bem extensa.

 

Pois esta minha missão, digamos assim, começou, no entanto, meio que por acaso, em meados do ano de 1972.  Foi quando me mudei, junto de minha família, pra um apê localizado na rua principal da cidade, um pouco mais espaçoso que o anterior.  Pra um moleque de nove anos, nada poderia ser mais excitante.  Novos ares, novas amizades, novas possibilidades.  Um mundo inteiramente novo em folha, enfim.  Os dias começaram a ser divididos entre as atividades do colégio e as brincadeiras com os novos companheiros, pelada na quadra do clube, polícia-e-ladrão e jogo de botão, as mais comuns.  Rapidamente, eu e meu irmão fizemos inúmeras amizades.  Algumas trazemos até os dias de hoje, outras acabaram desaparecendo pelo caminho, através da vida, como é natural.  Como já éramos – como ainda sou, ele nem tanto – tricolores absolutamente fanáticos, por ação caprichadíssima de DNA ISO-9000, acabamos influenciando boa parte da molecada, na época, ajudados, evidentemente, pela fase excepcional que o Fluzão atravessava no período.  O “Pudim”, o “Magricela”, o “Pingüim” e mais tarde seu irmão “Junim”, todos tinham apelidos, e poucos conseguiram escapar: não era mesmo fácil resistir, não apenas à dupla de irmãos tricolores mais incisiva do pedaço, mas principalmente ao apelo da “Máquina”, que viria logo a seguir, pra marcar a História Desportiva da Nação de modo tão impactante.  Muito provavelmente, nunca a torcida tricolor cresceu tanto, como naquela época.  Pois acabei entrando naquela onda, acostumei-me ao ofício, fui tomando gosto pela coisa, e venho tentando colaborar com a evolução espiritual da Humanidade, enfim, desde então.

 

Não conheço, em contrapartida, graças ao bom Deus, até a presente data, nenhum caso invertido, ou seja, de tricolor conhecido que tenha abandonado, por algum motivo, a Direção – não deve ser comum, acho eu, afinal a perda de energia cósmica, num caso desses, teria um caráter catastrófico, irreversível, de conseqüências imprevisíveis, pro pobre infeliz que viesse a cometer ato de tamanha insanidade.

 

Os renomados apresentadores do único programa ecumênico-tricolor da TV mundial, o “Show do Fluzão”, que vai ao ar todas as segundas-feiras, a partir do horário de 22h, na TV Focus, Canal 20, de Nova Friburgo, com exibição também via internet, realizam trabalho semelhante ao meu, o de salvar almas, o de arrebanhar novos torcedores para as nossas vestes – com uma competência bem maior, evidentemente, e com uma abrangência bem mais ampla, por motivos mais que óbvios, eis que sua audiência é simplesmente espetacular.  É mesmo impressionante a capacidade do Pastor Meyer e do Reverendo Perigoso em pregarem a Palavra para todos, indistintamente, sejam ou não tricolores, estejam ou não encaminhados para a Salvação.  Transmitem a paz e a esperança com vigor, fascinam pela sua disciplina, retumbantes de glórias mil.  Seus trajes, nossos mantos sagrados, sóbrios, serenos, impecáveis.  Não bastasse, têm permissão para visitar regularmente Xerém, a nossa Meca, um privilégio de poucos mortais.  As pesquisas, e eis aí um dos maiores mistérios da fé, indicam leituras inequívocas, as de que uma grande quantidade de telespectadores, ex-torcedores rivais, passou a torcer pro Fluzão, nos últimos meses, diretamente influenciados pela exibição do programa, o que constitui verdadeira façanha: sem qualquer contato pessoal com as ovelhas, enfim, e tendo apenas o tubo do micro ou da TV como veículo de aproximação.  Incrível.  Perto desses caras, sou um reles amador – eu trabalho a nível artesanal, uma reabilitaçãozinha dessas de cada vez, e tal, já eles em ritmo industrial, na base da tonelada, milhares por semana, é uma loucura.  São meus ídolos!  Talvez usem técnicas de hipnose, ou coisa parecida, enfim, vai saber.  Afinal, esse pessoal de televisão inventa de tudo, hoje em dia.

 

Mas não se trata apenas de cuidar de nossas almas, na suposta busca de se atingir o Nirvana Tricolor, ou algo assim, após o desligamento de nossos corpos – a idéia de que existe um Futuro Tricolor Perfeito para toda a espécie humana, aqui mesmo na Terra, lá adiante, encontra igualmente respaldo na área científica, em diversas frentes de pesquisa, enfim, cada um que acredite no que quiser, ou no que puder.  O exame do surgimento e do desenvolvimento progressivo do altruísmo e da inteligência, desde os primórdios da espécie humana, objeto de estudos antropológicos, as implicações de nossa evolução física e psicológica, passando por formulações desenvolvimentistas tão variadas quanto legítimas, em diversos campos do conhecimento, acerca de aspectos variados do funcionamento humano, como a formação do raciocínio moral, o nível conceitual individualizado, o pensamento epistemológico e ético, a concepção de progresso, considerada em sentido amplo, como mola mestra da civilização, são abordagens que deixam, realmente, pouca margem para questionamentos – estamos falando de valores abosolutamente tricolores da espécie humana, meus amigos e minhas amigas.  Mesmo a teoria das espécies darwiniana, que não nos apresenta qualquer programa moral, ideológico, ético ou altruísta como solução, deixa bem claro que, ainda que considerarmos nosso aspecto meramente animalesco, podemos ter a certeza de que as gerações seguintes sempre serão melhores que suas antecessoras, serão mais fortes, mais inteligentes, mais capacitadas.  Variação, hereditariedade e seleção natural, os princípios que se combinam para formar a essência do modelo evolucionário, eis a configuração da busca tricolor, eterna, do Universo, pela Perfeição, em todos os níveis, em todos os seres. 

 

Ciência e Religião parecem convergir, portanto, para o mesmíssimo conceito, embora, como de praxe, por caminhos diferentes – no Futuro, todos seremos tricolores.  Não os melhores, mas os únicos.  Não será amanhã, no entanto.  E nem depois, ou na semana que vem, evidentemente.  Serão necessários milhões e milhões de anos, até que mesmo o Último Homem a pisar este planeta esteja devidamente preparado.  Ou seja, precisamos ter certa paciência, pessoal, pois vai demorar.

 

Porém, se posso bem dar a minha pequena contribuição, ajudar nem que seja um cadim, pra que alguns tenham a chance de pular etapas, de galgar novos patamares, por que esperar, de braços cruzados, o lento desfile das gerações?  Pois seguirei firme e forte, em minha profissão de fé, a promover verdadeiros saltos ornamentais na escala evolutiva de uns poucos felizardos, na produção de neotricolores, sempre que possível, mantendo a visão de que, senão irmanados em glória física, a dar voltas olímpicas intermináveis ao redor do Globo, certamente seremos, todos juntos, lá pra frente, em algum ponto bem distante do calendário, espíritos de luz verde, branca e grená a vagar pelo Cosmo, em gozo tricolor eterno.

 

Sei lá o porquê, hein, mas me bateu uma vontade danada de terminar isso aqui com um singelo “amém”.

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Fluminense FM – Maldita! 

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Hoje, aqui nesse meu cantinho rockflu, vou meio que de flashback, pois quero falar de um livro bem bacana, “A Onda Maldita – Como Nasceu a Fluminense FM”, de Luiz Antônio Mello (Arte & Cultura, Niterói, RJ, 1992), que contém o relato definitivo sobre a Gênese, a Evolução e a Morte do projeto mais bacana de rádio-rock a ter vez neste país, em todos os tempos.  Quem teve oportunidade de acompanhar a emissora de Niterói, como eu, com o sinal absolutamente límpido (eu morava a três quarteirões do prédio da rádio, na época), jamais esquecerá a programação ousada e provocativa, as vinhetas alucinadas, a locução absolutamente diferenciada. 

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Tornou-se um mito por sua linguagem, por sua filosofia, por sua rebeldia, por seu idealismo, por sua conduta. Misturavam Frank Zappa com Led Zeppelin, Ramones com Alice Cooper, Paralamas do Sucesso com Grateful Dead, Jimi Hendrix com Kraftwerk.  Entrevistaram o Serguei ao vivo, fizeram um monte de promoções malucas, criaram o Rock Press, inventaram um tal Jarbas Falópio, o reacionário de plantão, mitificaram de vez o Circo Voador.  Clamavam, o tempo todo, por guitarras para o povo.  Uma emissora que não tocava sucessos, não tinha play list, não seguia qualquer outro caminho que não fosse o da qualidade musical e cuja massificação deveu-se, quase que exclusivamente, ao popular boca-a-boca, em função dos parcos recursos disponibilizados para sua divulgação. Uma autêntica revolução. Claro que funcionava. 

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Luiz Antônio, o autor do livro, que detalha os comos e os porquês da Flu FM ter entrado e saído do ar, era o diretor-geral da rádio.  Jornalista por vocação e roqueiro por devoção, era mesmo a pessoa certa pra detonar aquele projeto tão à frente do seu tempo. “O rock não é limpinho, não tem a ver com detergente, com consumismo. O rock é a voz do radicalismo, do incêndio, da piromania social. Não posso conceber essa coisa de superstar. Não dá pra engolir. A Fluminense jamais será uma rádio rica, cheia de equipamentos de última geração. Seria uma incoerência. Somos um veículo de oposição alucinada, de desvario, de intransigência. Quem ouve a Fluminense quer que se dane se a onda é comer torta de morango em Nova Iorque. A Fluminense não quer purpurina, não quer os cílios postiços da new wave, quer que Duran Duran se exploda. A Fluminense vai acabar, eu sei, mas vai acabar de pé”. 

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Êita, essa rádio porreta tinha que ter esse nome bacana, mesmo... pois caiu de pé, é verdade, seu Mello – mas pena que acabou, hein. 

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Pros interessados, maiores informações sobre a rádio e sobre o livro podem ser acessadas através do site do cara, www.aondamaldita.com.br.


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