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Ordem na casa

Por Gustavo Valladares on Junho 09,2006

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– Ué, mas o que é que a minha luvinha fluorescente do Rock in Rio I tá fazendo aqui em cima, pô? 

– É que tou dando uma geral nos armários e na estante, e tou aproveitando pra arrumar essa sua bagunça também.  Achei isso numa gaveta cheia de tranqueira, lá no quarto de trás.  Separei mais coisa tua, tá tudo ali no canto. 

Bati os olhos no tal canto.  Havia uma sacolinha, dessas de plástico transparente.  Continha alguns pequenos objetos e certa quantidade de papéis.  Abri a tal sacolinha, e examinei seu interior.  Tomei um susto.  Aliás, um não – foram vários, os sustos.

 – Mas até minhas coleções de canhotos de ingressos de shows de rock’n’roll e de jogos do Fluzão estão aqui.  Todos os Hollywood Rock, o Fla X Flu da barrigada, o Jethro Tull de 89!  Meus dois tíquetes do primeiro Rock in Rio, isso é uma relíquia! – Que relíquia nada, é tudo tranqueira.  Se não arrumar isso até hoje à noite, jogo tudo no lixo! 

É uma pena.

Uma lástima, realmente, que o nosso glorioso Oswaldinho de Oliveira não apresente a mesma capacidade, o mesmo talento que possui dona Ariane, quando se trata de botar ordem numa casa.  Observadora contumaz, a radiopatroa é capaz de, num átimo, verificar todos os pontos críticos, com absoluta precisão, e traçar, ato contínuo, todo o planejamento necessário, considerando, evidentemente, todas as variáveis pertinentes.  Incansável, arregaça as mangas e parte pra ação, confiante, absolutamente decidida.  Lava os banheiros e a cozinha, limpa os lustres, deixa as vidraças como brincos.  Retira as cortinas, lava as cortinas, recoloca as cortinas.  Capricha com os sofás, com as mesas, com as cadeiras, com os quadros, com os armários. Parte da estante merece atenção toda especial, as minhas duas prateleiras preferidas, o meu arsenal de artefatos tricolores, meu santuário das três cores que traduzem tradição, em exposição permanente.  Limpa cuidadosamente a minha caravela tricolor, os chaveiros, os ímãs, tira o pó das fotos, da bike tricolor em miniatura, das bandeiras do Fluzão, do meu diploma emoldurado de Sócio-Torcedor, de todos os bonecos, incluindo, evidentemente, o mini-ET de Varginha, figura de absoluto destaque na coleção.  Ela lava toda a louça, passa toda a roupa, meus ternos, minhas camisas sociais, minhas calças, sempre com odores agradáveis e vincos impecáveis.  Não bastasse, varre toda a casa, tira toda a poeira e passa pano molhado. Metodicamente.  Organizadamente.  É nota dez vezes dez.  Se, em geral, não bota a mão na massa ela própria, ao menos gerencia com primor as ações de Dona Dilmara, sua competente assistente de longa data. 

Pois Oswaldinho, desde que assumiu o Fluminense Football Club, mesmo com todo o seu batalhão de assistentes-de-plantão, foi capaz apenas de dar uma mera güaribada, no estado das coisas, lá pelo Laranjal.  Mal e porcamente, tirou a poeira sem sequer abrir as janelas, varrendo a sujeira pra debaixo dos tapetes.  Como uma diarista de meia-tijela, fez uma limpezazinha chinfrim, dessas que são feitas, comumente, quando estamos pra receber visitas de última hora, imediatas, inesperadas.  E deu no que deu.  Como era de se esperar, não foi suficiente – a eliminação precoce na Copa do Brasil que o diga, quando já nos imaginávamos fazendo a finalíssima, num Maracanã lotado, todo decorado em verde, branco e grená.

A chegada de nosso primeiro treinador do ano, no entanto, logo após o fracasso dos aprendizes Wortmann e Campos, ocorreu cercada de grande expectativa, talvez nem tanto por seu currículo vitorioso, embora algo irregular, mas certamente em função de seus bons resultados à frente do Fluzão, poucos anos antes.  Expectativa que, pouco a pouco, foi transformando-se, pra nosso deleite, em desmedida euforia – estivemos no topo da tabela, desde o início do Brasileirão, enquanto avançávamos adiante, imparáveis, pelas fases preliminares da Copa do Brasil.  Um mero castelo de cartas, porém.  Vitórias seguidas, à parte o gozo que proporcionam, costumam trazer embutidos certos efeitos colaterais indesejados, escondem defeitos, impulsionam a soberba, constituem atalho fácil para a ilusão, para o devaneio.  A realidade bateu à nossa porta, com sua crueza peculiar, escancarando nossas deficiências como fraturas expostas, em carne viva, dilacerada, latejante.  Perdemos quando não poderíamos perder, e logo pra quem nunca deveríamos perder, entregando, de bandeja, pra nossos piores inimigos, justo o filé mignon com batatas, uma final de um certame nacional – situação que nos é intolerável, vale salientar, eis que, não bastasse a rivalidade por si só, estivemos assistindo, nos últimos anos, de camarote VIP, sucessivos vexames de nossos rivais, especialmente em se tratando de Campeonato Brasileiro.  A queda de um deles – a queda de ambos! – para a segunda divisão nos vem ou vinha parecendo, nas últimas temporadas, uma mera questão de tempo, devendo ocorrer a qualquer momento.  Uma queda prometida, anunciada.  E não só provavelmente não vai acontecer tão cedo – ambos ganharam um certo gás extra, este ano, até pelas campanhas na Copa do Brasil –, como um deles, ainda por cima, vai faturar um canequinho bacana, de alcance nacional, antes de nós.  Masoquismo?  Que nada, antes fosse – apenas a realidade, essa fiadamãe, sempre sacana, sapecando mais uma porradazinha pra cima da gente. 

Temos apenas um time razoável, minha gente – e estamos longe, muito longe mesmo, hein, de ter elenco à altura de nossas pretensões, pelo menos as mais imediatas, as de um título nacional, com uma vaguinha pra Libertadores a tiracolo, enfim, como uma espécie de brinde.  Até porque nos resta apenas e tão somente a disputa do Brasileirão, pra esse fim, e aí todos sabemos que o buraco é bem mais embaixo, o bicho pega geral, e tem peixe grande na disputa, que deve pegar fogo após o período de paralização, por conta da Copa do Mundo.  Já havíamos perdido, no ano passado, a mais-mole-copa-do-brasil-de-todos-os-tempos, frente ao poderoso esquadrão de Jundiaí, e agora demos novo vacilo, deixando escapar a segunda-mais-mole, por entre os dedos, em direção ao ralo, por falta de um golzinho salvador.  Desse jeito, nesse ritmo alucinante, tá ficando difícil pra encarar...

Porém, não devemos imputar à fragilidade de alguns setores do plantel tricolor – especialmente em relação às peças de reposição do ataque, meu Deus do céu! – o desastre do mata-morre deste ano:  tampouco me conformo, por exemplo, com a postura da equipe como um todo, em determinados momentos da competição, bem como com alguns dos critérios utilizados pras substituições, ainda mais naquele segundo jogo, o decisivo.  Oswaldinho mandou cinco atacantes pro campo, a partir dos trinta minutos do segundo tempo, e todos sabemos que expedientes desse tipo, em desespero flagrante, nunca funcionaram na história do futebol, salvo, evidentemente, as exceções de praxe, que apenas confirmam a regra.  Quinze minutos da mais absoluta tortura, fora os descontos.  Perde-se totalmente o meio-campo para o adversário, e não há mais jogo de futebol propriamente dito.  Buscando ofensividade onde pode haver apenas insanidade, o que serve apenas pra fazer uma rima das bem pobrezinhas, o nosso treinador foi capaz de, com poucas mexidas, desfigurar completamente a equipe. Na famigerada tática do bumba-meu-boi, não tem erro, geralmente é mesmo a vaca que acaba indo pro brejo.  Ainda mais, convenhamos, hein, com as figuraças que adentraram o gramado – assistimos, até mesmo, pasmados, à ressurreição do Adriano Magrão, vejam os senhores, um autêntico milagre!  Mas a verdade é que, àquela altura, precisávamos mesmo era de um outro milagre, o de um golzinho apenas, e que acabou não saindo.  Milagres no atacado, êita, que beleza de mundo seria.  Sonho meu. 

Serão quarenta dias de intervalo, entre os jogos contra o Inter e contra o Juventude, já em meados de julho, após a Copa da Alemanha.  Uma nova pré-temporada, praticamente.  Hora de se tentar arrumar a casa, de uma vez por todas, a única chance que temos de ainda salvar o ano – eu quero é ser campeão!  Chance de ouro pra pequenas reformulações, mas que poderiam fazer grande diferença.  Um lateralzinho direito, ôpa, seria de ótimo tamanho. Gabriel, talvez?  O nome ideal.  E pelo menos um meia de qualidade.  Podrinho?  Adeus.  E um atacante, vamos lá, pra arrematar, quem poderia ser?  Alguém que compreenda perfeitamente o sentido do termo atacar.  Magrão pro limbo, Pitbull pra carrocinha, Lenny pro banquinho, pelo menos até que coloque novamente a cabeça no lugar e o pé na forma.  Beto vem aí, ok, mas o bicho assim não vai pegar.  O rapaz serve, até, pra compor o elenco, e tal.  Ser o que se chama de um bom reserva, um Evando melhorado, talvez, digamos.  Mais ou menos por aí.  Mas ele não é o cara.  E queremos ninguém menos que o cara. 

É papo pro nosso santo padroeiro, São Celsinho Barros, resolver, claro, juntamente com a Diretoria.  O que queremos, afinal, até dezembro?  Qualquer resposta que não seja “mera figuração” ensejará, de pronto, determinadas mudanças no Laranjal.  Mudanças de comportamento, de postura.  No mínimo, enfim, um belo ajuste de foco, capaz de transformar o ambiente.  Queremos ambição, fome de conquistas.  Queremos atitude de time que quer ser campeão.  Pensar grande, pensar pra cima, pensar o máximo. 

É a hora certa pra se botar ordem na casa, enfim, enquanto o pulso ainda pulsa.  Só títulos salvam, só títulos salvam, só títulos salvam.  Eu li isso não sei onde – mas quem escreveu, ôpa, tem mesmo toda a razão desse mundo.

 – Além do mais, não tem nada de fluorescente. 

– Ahn? 

– A tal da luvinha do Rock in Rio.  Não é fluorescente.  Tem só uma cor esquisita, meio verde-cheguei.  Tipo cor-de-burro-quando-foge.  Mas não passa disso.  E é bem brega, aliás. 

– ...

  * * --- * * 

Eric Gales 

As críticas têm sido certeiras, sem economizar nos superlativos, e os fãs andam como pintos no lixo, absolutamente embasbacados.  Com “Crystal Vision”, seu novo álbum, lançado há poucas semanas, cinco estrelinhas pelo padrão rockflu de qualidade, Eric Gales sedimenta definitivamente sua carreira, estabelecendo, de vez, o caminho a percorrer.  Segue prestando reverência assumida a grandes mestres do passado, porém, mais bacana que isso, está conseguindo criar uma nova música, totalmente sua.  Tecnicamente, em termos instrumentais, trata-se, de seu álbum de maior qualidade – mantendo a tradicional pegada rock’n’roll, desfila sua técnica apuradíssima por entre números que vão do jazz funkeado ao hard rock básico, com a maior naturalidade, como se bebendo água estivesse.  Não bastasse, emendou uma releitura absolutamente fantástica de “Hush”, de Joe South, imortalizada na clássica versão da primeira formação do Deep Purple, e enfiou logo dois bluesões de responsa, no repertório – o blues, uma constante em suas apresentações ao vivo, somente era percebido, no entanto, em seus álbuns solo anteriores, muito mais como uma influência poderosa, mas implícita, do que propriamente nas músicas, assim de portas abertas, escancarado. 

O menino-prodígio de outrora parece ter mesmo atingido a maturidade, afinal. Eric Gales é constantemente comparado a Jimi Hendrix.  Não sem motivo – negro, canhoto, tendo o rock’n’roll com fortes pitadas de blues como sua praia principal, e tocando de maneira inusitada, com a guitarra de cabeça pra baixo, sem sequer ameaçar inverter as cordas, Eric não apenas se parece com Hendrix, mas também soa de uma maneira que nos remete instantaneamente ao Negão, muito embora tenha desenvolvido estilo absolutamente personalíssimo, através dos anos. 

Uma matéria bacaninha, assinada por este que vos digita, sobre o nosso herói, pode ser conferida através dos seguintes links: http://www.popmix.com.br/conteudo.php?conteudo=noticias&codigo_noticia=104 e http://www.popmix.com.br/conteudo.php?conteudo=noticias&codigo_noticia=105 . 

Pros que quiserem conferir o massacre sonoro desse guitar man genial, só fazer uma pesquisa rápida googleana, localizar os álbuns, clicar e encomendar: recomendamos especialmente os dois últimos, “That’s What I Am”, de 2001, e o recém-lançado “Crystal Vision”, bem como “Left Hand Brand”, projeto bem bacana, em conjunto com toda a família Gales, de 1995. 

Já pros que preferirem sacar apenas algumas faixas rápidas do maluco, numa de sentir o clima, através dos eMules da vida, posso indicar algumas pérolas, assim pra começar, fáceis de achar, “Blue Misty Mornin’”, “Plastic Girl”, “Hand Writing On The Wall”, “Just Got Paid”, “Hand Me Down”, “Retribution”, e até uma cover hendrixiana, “Foxey Lady”, versão genial, absolutamente matadora. 

Se bem que, na dúvida, melhor sair baixando todas as que aparecerem pela frente, hein. Garanto que vai ser bater e valer.


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