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O CARECA DO TALCO
Oct 10,2007 00:00
by
marcelo
Eu ainda era pequeno quando o vi pela primeira vez. Nas arquibancadas do Maracanã, antes do Fluminense entrar em campo, ele surgia por um dos túneis de acesso e era aquele alvoroço, provocado por pequenas nuvens de pó-de-arroz por ele jogado em cima dos tricolores. Levava o talco em um saco que fazia parte de seu uniforme, junto com uma camisa branca com um grande escudo do Fluzão, uma bandeira que ele usava nas costas como uma capa de super-herói e uma faixa na cabeça. Os tricolores sendo batizados por ele, um a um, os que queriam e até os que não queriam, como se fosse possível não ficar todo branco quando, momentos mais tarde, o esquadrão tricolor entrasse em campo. Guilhermino dos Santos nasceu para fazer aquele ritual, definitivamente. Acabou sendo conhecido pelos tricolores como o Careca do Talco. Todo tricolor que hoje tem mais de 30 anos, tem a lembrança alegre do Careca. Ele só ficava triste, e adorava falar isso aos quatro cantos, quando o confundiam com o Beijoqueiro. Ou então quando alguém perguntava se ele não havia morrido, isso por causa de uma lenda – que rendeu até uma equivocada publicação em um livro – de que por problemas respiratórios, causados pelo próprio talco, ele havia deixado esse mundo. Quem teve a oportunidade de assistir ao filme Saudações Tricolores, pôde ver na entrevista que ele deu; era a mais pura verdade. Ele sempre dizia isso pra gente. Uma vez viajei no ônibus da Young Flu para um jogo fora do Rio, e foi ali que eu vi o Careca disfarçado, ou seja com roupas normais. Estava sentado no primeiro banco, calças jeans e camisa pólo. Eu cheguei perto e fale de brincadeira: “Pô, você parece o Careca”; Ele riu e me estendeu a mão, como que se eu fosse um novo amigo. Falei: “Careca, eu já te conheço desde criança”. Em 1984, na inesquecível semi final contra o Corinthians, ele resolveu fazer diferente, e saiu do Rio já preparado para o jogo. Nas paradas pela Via Dutra ele jogava talco em quem se descuidasse, o jogo já havia começado pra ele. Aquilo pra mim se tronou mais um caso a ser guardado daquele inesquecível dia. Depois dos anos 80, pouco a pouco, aquele ritual foi desaparecendo. Talvez pela violência que aflorou nos nossos Estádios, talvez por outro motivo qualquer. Não vem ao caso. Na época do nosso Centenário, ele voltou a aparecer, para provar que não havia morrido. Para alguns desavisados. Para mim foi uma bela surpresa, como que um presente que a vida havia me dado. Ver o Careca de novo. Poder ser batizado mais uma vez. No jogo festivo contra o Toluca, naquela noite de julho de 2002 no Maracanã, estive dentro do campo para ver de perto antigos ídolos e tirar as minhas fotos, quando vejo o Careca ali ao meu lado. Antes de abraçá-lo e, claro, tirar uma histórica foto dele, notei o Cláudio Adão, suado após ter jogado a preliminar, chegando pra perto da gente. Não pensei duas vezes, e botei pilha para que o Careca batizasse o Adão também. Dito e feito, lá estava o Careca com a mão cheia de talco em cima de nosso artilheiro de 1980. Na despedida, dei-lhe um abraço e falei o que seriam minhas ultimas palavras a ele dirigidas: “Careca, um dia ainda vou te apresentar um filho meu, e você irá jogar talco na cabeça dele. Ele fez que sim, sorriu e fomos embora.” Pouco tempo depois soube de sua morte. Infelizmente dessa vez de verdade. Além da lembrança e da reverência eterna que cada tricolor deve ter por ele, o mínimo que podíamos fazer como grande homenagem, nessa época de revolução de nossa torcida, era lutar pela volta do talco, ou pó-de-arroz como queiram, às nossas arquibancadas. Pelo Careca! |