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Nem Kardec explica Alan
Jan 22,2006 00:00
by
gustavo
Tudo muito bom, tudo muito bem. Estreamos com nosso time C, no Carioca 2006, e, ainda assim, sapecamos quatro a zero pra cima da Portuguesa da Ilha. As rodadas seguintes, por sua vez, senão perfeitas, pelo menos mantiveram o time no topo da tabela, em seu grupo: já com o reforço de mais alguns titulares em campo, humilhamos o Nova Iguaçu, na quarta-feira, seis a zero, com sobras, e, sábado último, o time ainda longe do ponto ideal, cedemos o empate, dois a dois, já quase nos descontos, pro Americano, que, atuando em seus próprios domínios, é sempre adversário complicado, ainda mais em se tratando de um jogo que valia a liderança na competição. Estamos mesmo sobrando, na turma: ainda nos falta mais de meio time pra estrear, e o caminho para as finais da Taça Guanabara parece estar devidamente pavimentado. Salvo algum imprevisto, algum zebrão dos brabos, sejamos francos, somos favoritos disparados para a conquista do nosso tão sonhado tri dos centenários, 1995/2002/2006. No entanto, não obstante toda esta configuração extremamente positiva, a verdade é que não tenho conseguido relaxar nem um pouco, nos últimos dias. Fatos terríveis, ocorridos nessas primeiras rodadas, têm-me tirado o sono, causando-me mal estar, insônia, vertigens, enjôos freqüentes, taquicardia. Aos trinta e poucos minutos do segundo tempo da partida contra a Lusinha, a primeira desgraça prestes a acontecer, o estrategista Ivo Wortmann resolveu sacar nosso camisa dez, Bruno, o novo Ronaldinho Gaúcho, que se arrastava em campo, coitado, cansadaço. Nada mais sensato: fazia um calor dos diabos em Édson Passos, o que era perfeitamente natural, em se tratando justo do estádio do América. Mas eis que surgiu, como se do chão brotasse, todo saltitante, à beira do gramado, provavelmente vindo do banco de reservas, aquecendo-se para entrar em campo, no lugar do nosso craque do Sul, ninguém menos que ele, o glorioso... Alan. Isso, pessoal, ele mesmo: Alan, o Cabeção. Alan, o Bob Esponja. Alan, o líder dos pigmeus Bandar. Alan, o Forrest Gump dos gramados. Esfreguei bem os olhos, com as duas mãos – eu não conseguia acreditar no que estava vendo. Já contra o Nova Iguaçu, no finalzinho do jogo, o sacado foi Adriano Magrão, que, diga-se de passagem, teve bela atuação, coroada com um golaço, ainda no fim da primeira etapa, e, concordo inteiramente, merecia igualmente um belo dum descanso – mas será que não havia outra opção, precisava ser mesmo o Alan a entrar pro jogo, outra vez? No sábado, em Campos, o nosso herói, incrivelmente, voltou a entrar na partida – a exemplo do jogo anterior, já quase no apagar das luzes, numa substituição daquelas de fim de festa, pra se ganhar um tempo, e tal. Pois provou ser, além de tudo, um tremendo pé-frio: foi o Alan botar os pés em campo e pimba!, o Americano empatou, com aquele gol de falta em que a barreira deu mole, meu Deus do céu, às vezes tenho a impressão de que só as barreiras do Fluminense é que se abrem assim, de modo tão bisonho... Será possível que o Alan voltou a fazer parte dos planos tricolores? É muita desgraceira, não pode ser, ô, Ivo Wortmann, não faz isso com a gente, não, hein – ou, então, alguém pare o mundo, por favor, que eu quero descer... Por sinal, lá em Campos, desconfio de que o Alan tenha protagonizado alguma espécie de recorde mundial, pois conseguiu ser o pior jogador em campo, frente ao Americano, mesmo tendo atuado míseros três ou quatro minutos, e mesmo tendo o Gabriel Santos em campo, como companheiro de equipe! Pegou na bola três vezes – e fez, como de praxe, três besteiras feiosas. Conseguiu cem por cento de aproveitamento, pena que negativo: o maluco errou tudo! Considero simplesmente fantástica, extraordinária, sobrenatural, embasbacante mesmo, a capacidade de sobrevivência desse rapaz, que vaga, há anos, como um zumbi desorientado, pelas redondezas do Laranjal, fingindo-se de morto, enganando a uns e a outros poucos. Passa o tempo, a gente se distrai, relaxa, acha que ele não está mais por lá, ninguém sabe, ninguém viu. Mas, quando menos se espera, créu!, lá está o Alan em campo novamente, pra desespero da massa tricolor. A cada ano, zarpam do Laranjal, tradicionalmente, inúmeras barcas, lotadaças, com dezenas de molambos, dos quais queremos distância a todo custo, espécimes em desejada extinção. Têm sido assim há anos, nossas tentativas vãs de nos livrarmos de todo o mal, amém. Uns somem de vez, outros vão e voltam, mas com o Alan é sempre diferente, chego a desconfiar de alguma maldição de nossos adversários, o maluco nunca nos dá a alegria de vazar, de desaparecer, de ir passear no Uzbequistão, por exemplo, pra citar um destino turístico que está na moda, entre os boleiros – nem sequer por uma semaninha ou duas, tipo assim, curtindo uma de turista antenado, pós-moderno, e tal. Mas nem sequer aos treinos ele falta, o sacana. É uma tortura sem fim. E não é que o Alan jogue mal – o caso é que ele geralmente não joga. Pouco ou quase nada participa do jogo, some, esconde-se o tempo todo, não faz rigorosamente nada que preste, em todas as vezes em que está em campo. Quando pega na bola, o que já é raro, é pior ainda: só sai cagada. Aquela trivela, pro segundo gol do Adriano Magrão, em nossa estréia? Não se iludam – mera exceção, a confirmar a regra. A bola está no sul, o Alan quase sempre está pro norte. Não chuta, não combate, não se apresenta nunca para o jogo, os companheiros parecem não enxergá-lo, não consegue dominar as poucas bolas que recebe, algumas parecem atravessá-lo, desafiando as próprias leis da Física – tenho a nítida impressão, às vezes, que ele na verdade não está lá, em campo. Parece estar, é verdade: todos os nossos sentidos indicam que ele está lá. Mas não está, não é possível que esteja. O Alan é oniausente, eu diria, se é que existe palavra de significado tão bizarro – o maluco parece simplesmente nunca estar em lugar nenhum, é impressionante. Uma ilusão de ótica, do tipo coletiva? Uma alucinação, quem sabe um holograma? Ou, sei lá, uma projeção astral, um corpo etéreo, o Homem Intangível. Talvez, até, uma entidade dessas sobrenaturais, um ghost, uma manifestação espiritual, uma alma penada, vai saber – que os fantasmas se divertem, a gente já sabe há muito tempo, mas, na boa, hein, precisava ser às nossas custas? Como, enfim, pouco entendo desses assuntos, do aquém e do além, pus-me a fuçar referências, numa de encontrar alguma luz, tentar resolver esse grande mistério alaniano, de uma vez por todas. Pesquisei a fundo as leis que regem o mundo espiritual e suas relações com o mundo corporal, em busca de pistas. Tentei juntar a razão à fé, observei ensinamentos espíritas aliados a princípios da lógica pura e simples, unindo Física e Espiritismo, Ciência e Religião. Cuidei de estudar, com especial afinco, relatos acerca de intervenções dos espíritos no mundo corporal, a mecânica quântica e sua suposta relação com a fenomenologia das ilusões de ótica, os estados alterados de consciência e as manifestações mediúnicas, levitações magnéticas, subatômicas, como prováveis conseqüências de inversões na polaridade do planeta, aspectos da emancipação das almas e das projeções astrais, dos buracos negros, cósmicos, e das penas e gozos, terrenos. Cheguei a estudar, também, em minúcias, o manual técnico do holodeck, da mítica Enterprise, cujo download, obviamente, ocorreu sob licença da Federação dos Planetas Unidos. Examinei, ainda, alguns roteiros de filmes de terror, em que, inocentemente, vejam vocês, acreditei pudesse dar de cara com pelo menos algumas peças úteis, a compor o quebra-cabeças. Pois eu desisto, é inútil: de Allan Kardec a Albert Einstein, passando por Stephen King, é tudo em vão – o fenômeno Alan parece ser mesmo inexplicável. Faço questão, no entando, de deixar bem claro nada ter contra o ser humano Alan, é evidente, que dizem ser super gente boa, inclusive bastante dedicado profissionalmente, e tal. O meu problema com este rapaz é que ele joga no Fluminense, e não deveria jogar no Fluminense, apenas isso. O Alan poderia tentar outra profissão, ser um médico, um engenheiro, um advogado. Ou dono de boteco, de açougue, de padaria. Quem sabe, um comediante dos bons, o novo Golias? Ele poderia mesmo ser ator, acho que leva até jeito pra coisa, hein, vejam que idéia interessante – bons filmes, arrisco, decerto não lhe faltariam, em sua carreira cinematográfica. Um coadjuvante de peso, imaginem só, em obras como “Um Espírito Baixou em Mim” (EUA, 1984), ou “Os Imperdoáveis” (EUA, 1992). Poderia fazer, também, tranqüilamente, o papel de vilão em “Os Caça-Fantasmas” (EUA, 1984). Ou, quem sabe, protagonista de uma refilmagem de “Os Anjos Batem Melhor com a Direita” (ITA, 1971), no qual seria evidentemente substituído por um dublê, nas cenas mais complicadas, com bola, e tal. Figurante com algum destaque, quem sabe um close bacana, com o DiCaprio ao fundo, em “Titanic” (EUA, 1998), numa homenagem a sua carreira futebolística no Laranjal, já que sempre escapou incólume de nossas barcas e balsas, talvez o seu papel ideal. Na verdade, o bravo Alan poderia ser até jogador profissional de futebol, não tenho nada contra esse desejo, essa fixação – mas que seja longe do Fluminense, hein, por favor. Ou, então, considerando-se a teoria da reencarnação estritamente aplicada ao meio futebolístico, como elemento regenerador de molambos, que apareça pra treinar, lá em Xerém, daqui a uns cem ou duzentos anos, o mesmo espírito num novo corpo, sei lá, pode ser que assim passe a jogar, quem sabe, pelo menos um cadim de bola... |