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A minha cena preferida do Tarantino
Mar 27,2006 00:00
by
gustavo
“E agora, hein? Quatro semanas seguidas, sem futebol nos finais de semana, até o início do Brasileiro. Que merda. A gente vai ter que arrumar outra coisa pra se distrair”.
Segunda-feira. Oito e meia da noite. Nossa reunião tricolor semanal, tradicional, no Bar América, região central de Nova Friburgo. Estavam por lá o Peri e o Beto Meyer, vindos da gravação do programa na TV, o Beto Sales e a dona Rosanita, mais o Jayme Lima e o Eric Lima, que, apesar dos sobrenomes em comum, deve ser só pra confundir a opinião pública, sequer parentes são. Rigorosa igualdade, entre as turmas do vale-tudo líquido e da coca-pepsi-guaraná. Jogo desempatado, no entanto, com a minha chegada. Pro lado dos biriteiros, é claro. Pois começamos o papo falando de Fluminense, como é natural. Imagens do match de domingo ainda nas mentes, xingamos até a quinta geração de toda aquela mulambada: jogadores, treinador, preparadores físicos, diretoria, assistentes, departamento médico, ninguém escapou. Sobrou até pro roupeiro, coitado, que nem sei quem é, “bom mesmo era o Ximbica, não essa merda que tá lá”, pow, que culpa pode ter o maluco? A choradeira generalizada continuou por bom tempo. Afinal, o Fluminense largou mão de faturar o bi mais mole de todos os tempos, ao ser eliminado, melancolicamente, pelo saldo de gols, em disputa com o Americano, mesmo tendo vencido o Volta Redonda em seu último compromisso: precisávamos de mais um golzinho, apenas mais um golzinho. De favorito absoluto – vai, Pet, continua falando merda, aê, vai – a fiasco total, ao time do quase, eis a configuração tricolor no Cariocão deste ano. Mesmo tendo sido a equipe que mais investiu, contando com patrocínio robusto, sequer chegou a uma das semifinais, de ambos os turnos. É triste. É dose. Não bastasse, perder a vaga daquele jeito foi mesmo de matar, com aquele bombardeio tricolor nos últimos dez minutos de jogo, três bolas na trave, fora as chances perdidas na cara do goleiro, um verdadeiro teste pra cardíaco. Assim mata o tricolor, mata. Sem falar no arremate final do Adriano Magrão, o maluco de cara pro goleiro, a bola indo parar no córner, uma cena lamentável, grotesca, que não consigo digerir, não consigo expulsar da memória, aquilo é coisa pra se traumatizar qualquer um. Enfim, errou, minha gente, não tem jeito – tem que pagar o preço. Enquanto o condomínio e o mecenas, os gestores dos recursos financeiros, brincarem de gerir futebol, vai ser dessa maneira, não pode mesmo funcionar. A vida é assim, o mundo é assim, enfim. Quem não tem competência, não se estabelece. Cristalino. Tentamos identificar, com precisão, o motivo principal da derrocada, da manutenção dessa nossa via crucis de sofrimento e decepção. Não conseguimos. Optamos pelo conjunto da obra, enfim, em detrimento de alguma razão específica. Inadmissível, um clube do porte do Fluminense fazer tanta cagada, em tão pouco tempo. A preparação física meia-boca. Rissut, Ângelo Evando, Roger, Podrinho, contratações desnecessárias, descartáveis. O tal buraco negro que parece estar instalado no departamento médico. E, na boa, quem é que trouxe o Adriano Magrão pro Fluminense, no ano passado, meu Deus do céu? O sujeito mal sabe andar, quanto mais jogar. O responsável deveria estar preso! Eu vou ser sincero com vocês, eu tou mesmo bolado com esse Adriano Magrão, ando tendo saudades até do Léo Guerra, é caso grave, muito grave! Ivo Worttman e Paulo Campos, dois treinadores sem qualquer babagem, sem currículos suficientes pra um Fluminense Football Club. Duas apostas furadíssimas – ou param de apostar desse jeito, lá no Laranjal, ou então que transformem aquilo num bingo, duma vez! Muitos e muitos erros. Sucessivos, cumulativos. Só podia dar no que deu. E ainda andou-se especulando sobre um suposto retorno do Romala, logo ele, numa de reforçar o plantel pro Brasileiro. Estão mesmo de pilha, estão brincando de fazer futebol, não é possível. Pois a choradeira tricolor continuou por mais alguns bons minutos. Falamos das perspectivas pro resto do ano, discutimos os prós e os contras da vinda do Burka Enfiada, e da necessidade de contratações em algumas posições-chave – a lateral direita, a principal delas, eis que não parece muito provável que o Rogério se instale por ali, por aquele setor, quando estiver recuperado da tal contusão, que parece eterna. E acabamos mudando, pouco a pouco, o rumo da prosa, pros lados da literatura, em que pincelamos rapidamente “Febre de Bola”, de Nick Hornby, e principalmente do cinema, o assunto Oscar 2006 ainda bem recente, a vitória de “Crash” como melhor filme, apesar do festival de lamúrias de dissimulado engajamento brokebackiano da mídia, algo patético. Emendamos com “Match Point”, o novo do Woody Allen, que agradou a gregos, mas desagradou a troianos. Até que alguém citou “Irreversível”, uma produção francesa, de 2002, filme dirigido pelo cineasta argentino Gaspar Noé, que contém cenas explícitas de violência extrema, inclusive sexual, como sendo “uma espécie de filme do Quentin Tarantino, porém bem mais punk”. Seguiram-se discussões inflamadas sobre ética, sobre estética. As cenas do estupro coletivo de Monica Belucci, de nove minutos, sem cortes, e depois o porra-louca do Vincent Cassel usando um extintor de incêndio pra esmagar a cabeça de um sujeito, numa boate gay, em comparação a alguns trechos também barra-pesadíssima de “Pulp Fiction” e de “Cães de Aluguel”, do Tarantino. Falamos, ainda, da expectativa de novos trabalhos do cara, de “Grind House”, filme de horror, com estréia prometida pra este ano, em parceria com Robert Rodriguez, relembrando a dobradinha de “Um Drink no Inferno”, e de “Inglorious Bastards”, projeto de filme de guerra, que, ao que parece, vai mesmo sair do papel, sem falar numa suposta continuação de “Pulp Fiction”, um sonho antigo de todo e qualquer fã que se preze. E seguimos com o papo tarantinesco, amarradões, até que um maluco – devíamos estar falando bem alto – levantou-se da mesa ao lado, e mandou essa, direto, na nossa lata: “aê, qual a cena preferida do Tarantino, pra vocês? Vale qualquer uma, de qualquer filme dele!”. Após breve silêncio, entreolhamo-nos, surpresos com o inusitado da situação – afinal, ninguém ali conhecia o tal curioso. Pois foi o Beto Meyer quem quebrou todo o gelo e, segundos depois, já comentava sua cena preferida, “cara, pra mim, acho que é a dança do John Travolta com a Uma Thurman, em ‘Pulp Fiction’”, e, enquanto falava, reproduzia fielmente a tal dança, com os dedos das mãos em vê, a imitar máscaras, executando movimentos circulares, só faltou mesmo cantarolar um trecho da trilha sonora, enfim, pra dar o clima final, nota dez! Quem opinou em seguida foi o Jayme, que resolveu chutar logo o balde de vez, “pois eu fico com a Uma Thurman arrancando o olho da Daryl Hannah, em “Kill Bill vol. 2”, e toda aquela seqüência posterior, da Daryl cega, a esguichar sangue, tentando golpear a Uma, que gargalhava freneticamente”. O Beto Sales escolheu uma cena de “Cães de Aluguel”, a de um daqueles malucos ameaçando tascar fogo em outro, que estava amarrado a uma cadeira, indefeso e desesperado. Dona Rosanita, claro, optou também por seguir o bicho, como era de se esperar, porém decidiu-se pela cena final de “Cães de Aluguel”, aquela do impasse tenso, seco, mas ao mesmo tempo hilário, todos aqueles doidos varridos com as armas engatilhadas, uns na direção dos outros, até que um mero estampido dá origem ao massacre coletivo, grande take, realmente um belo voto! Já o Eric, por sua vez, resolveu homenagear Bill, o personagem de David Carradine na saga ‘Kill Bill’, “eu realmente gostei bastante daquele emblemático diálogo de quase vinte minutos, entre a Noiva e o Bill, no final do filme, principalmente quando o Bill fala do Superman e traça um comparativo crítico entre o personagem dos quadrinhos, que é dotado de inúmeros superpoderes, e o próprio ser humano, que é tão fraco, tão frágil”. Bom, muito bom mesmo! Pois enquanto o Eric dava o seu testemunho, meu celular tocou. Era o Sérgio Duarte, o Serginho, co-apresentador do Programa Rock-Flu, que estreará em breve como mais uma atração imperdível da emergente Rádio TT. Ligou pra trocar idéias sobre o piloto do programa, mas fui logo cortando, “cara, estamos no meio de uma discussão importante aqui, mais tarde eu te ligo. Aliás, me diz uma coisa, qual a tua cena predileta do Tarantino?”. “Hã?”. “Dos filmes do Tarantino, rapá, anda, vale qualquer uma”. Mesmo tendo estranhado a pergunta repentina, àquela altura do campeonato, o Serginho não se fez de rogado e mandou muitíssimo bem, de bate-pronto, “bom, a de que mais gosto é aquela do Bruce Willis eliminando o John Travolta, quando este estava sentado no vaso, fazendo um singelo cocozinho, em “Pulp Fiction”... aquele minuto de silêncio, até que a torradeira apita e o maluco atira, essa é demais!”. Faltava o Perigoso – e o Peri, como é de sua natureza, acabou surpreendendo a todos, lembrando-se de um filme que até então não havia sido comentado, “pois eu fico com a cena do assassinato daquela loira doidona, no estacionamento de um shopping, pelo Robert DeNiro, em “Jackie Brown”. Ela foi enchendo o saco do cara, por um motivo ridículo de que não lembro, até o maluco explodir de raiva e dar três tirambaços na fuça dela, assim, de graça, do nada”. Boa, essa, Peri! E foi então que, de súbito, os olhares de todos os presentes convergiram para o ponto onde eu estava – pois é, pessoal, faltava eu, né. Faltava, claro, a minha cena favorita. Pois enquanto todos falavam, fui pensando em algumas boas. Os miolos do Adriano Magrão sendo espalhados pra todo lado, no pára-brisa traseiro de um carro, em plena via pública, após a arma do John Travolta ter disparado por acidente, em “Pulp Fiction”. O Adriano Magrão sendo trancado dentro de um caixão e enterrado vivo, a mando do Bill, em “Kill Bill vol. 1”. O Bruce Willis em dúvida sobre qual arma escolher, em “Pulp Fiction”, pra dar cabo dos sadomasoquistas e do Adriano Magrão, na loja de conveniências. O Adriano Magrão sendo trucidado por hordas intermináveis de guerreiros ninjas assassinos, em “Kill Bill vol. 1”. O Samuel L. Jackson e o Travolta, em “Pulp Fiction”, discutindo sobre o Milagre, sobre a Mão de Deus, que teria desviado o chute certeiro do Adriano Magrão, contra o Volta Redonda, já nos descontos. Em “Cães de Aluguel”, Mr. White eliminando o Adriano Magrão, cumprindo ordem direta de Mr. Orange. Novamente em “Pulp Fiction”, o Adriano Magrão sendo castigado no porão da loja de armas, pelo comerciante e pelo segurança, “vai, Zed, castiga bem ele, Zed”. Impossível, enfim, escolher uma só. Mas insistiram. “Não, queisso, todo mundo pescou umazinha só, tu tem que definir a tua também, senão não vale”. Ok, ok, ok... acho que é justo. Pois então fico com Jules Winnfield, personagem de Samuel L. Jackson, citando um trecho do Evangelho, em “Pulp Fiction”, antes de metralhar sua vítima, mais ou menos assim: “O caminho do homem justo está bloqueado por todos os lados pelas iniqüidades dos egoístas e a tirania dos perversos. Bendito aquele que, em nome da caridade e da boa vontade, é pastor a guiar os humildes pelo vale das sombras, pois ele é o verdadeiro guardião de seus irmãos e o salvador dos filhos perdidos. Exercerei uma vingança terrível, de furiosos castigos, sobre os que tentarem destruir meus irmãos. E ficarão sabendo que eu sou o Senhor”. (Ezequiel 25:17) A vítima, naturalmente, era de novo o Adriano Magrão. Pois é, pessoal, não tem jeito. Eu ando mesmo boladaço com esse, digamos, ator medíocre, com esse canastrão. Ah, o cinema, a maior diversão! – pelo menos, enfim, enquanto o Brasileirão não vem... |