Meu filho Enzo, Manfrini, e a Copa do Brasil de 2007
Jun 07,2007 00:00 by marcelo

Ao deixar o Maracanã após o empate na primeira partida contra o Figueirense, sinceramente não acreditava mais na conquista da Copa do Brasil. A sorte de campeão, que nos bateu à porta em algumas partidas, principalmente na Fonte Nova e na Arena da Baixada, parecia ter nos abandonado.

 

No dia seguinte, já de cabeça um pouco mais fresca, decidi não abandonar o barco assim tão facilmente. No orkut, principalmente na Comunidade da Legião Tricolor, via a animação e a disposição de muita gente que havia garantido a viagem para ver o jogo de volta no Orlando Scarpelli. Resolvi então fazer tudo que havia prometido. Minhas mandingas. As mesmas que deram certo contra o Volta Redonda em 2005. Fiz todas, podem acreditar. Nem posso contar aqui pois vão me chamar de louco. E dos varridos.

 

Na quarta feira acordo cedo, vou para o trabalho. Ligo pra casa, esqueci de um detalhe importantíssimo: meu filho Enzo tinha que ir para o colégio com a camisa tricolor. Fazia parte. Ele foi. Fui buscá-lo, pois voltei pra casa mais cedo, para fugir do trânsito de véspera de feriado. E para iniciar a minha concentração para a grande final.

 

Enzo tem apenas 2 anos e meio, nasceu no final de 2004. Já tem no currículo um título estadual de 2005, esse será o seu primeiro título nacional, penso. Como foi o meu em 1970 com o Flu de Mickey, Felix e cia. Ele parece animado, mas após o jantar, seu sono é mais forte, claro, e ele vai “assistir” o jogo dormindo em seu berço.

 

Começo a minha concentração. Rezo, toco violão, olho por céu, coloco a camisa do Fluminense que meu filho usou no Colégio na poltrona em frente à televisão. A essa altura a SPORTV já iniciou sua transmissão, Pedro Bial garante que o Flu vai vencer. Eu também acho, fiz tudo o que prometera ao nosso João de Deus, ao Sobrenatural de Almeida, e a quem mais eu pudesse me lembrar de pedir ajuda.

 

Roger faz 1 a 0 logo no início do jogo, pulo, vibro e me lembro que, nas minhas previsões doidas, sem critério, búzios, cartas ou bola de cristal, eu havia dito a um amigo no intervalo do Maracanã que o Flu iria vencer em Floripa com gol do Luis Alberto. Tudo bem, o Roger está jogando no lugar do Luis Alberto, então vale o gol do Roger. Mas ainda teria o jogo inteiro pela frente. E era difícil o placar permanecer inalterado. Achava que no contra-ataque o Flu faria mais um e aí o Figueirense estaria morto. Mas o tempo foi passando, devagar pra caramba é verdade, e nada de sair gol em nenhum dos dois lados. No intervalo dou mais um beijo no Enzo, dormindo seu sono tranqüilamente.

 

Volto para o quarto da televisão, onde o gol do Roger está sendo repetido, sento no mesmo lugar, faltam mais 45 minutos que vão demorar horas pra passar. No segundo tempo, como todo tricolor vivo, defendo cada bola junto com Fernando Henrique, rebato cada bola com nossa defesa, perco o gol feito junto com Alex Dias. Mas tudo bem, o domínio desesperado do adversário se resume a trezentos escanteios. Eles parecem querer apelar para algum santo. Penso logo em Santa Catarina, mas nunca ouvi falar que santa gostasse de futebol. E ela bem que poderia torcer pro Avaí. A torcida local deve ter sentido uma inveja em não poder cantar a “nossa” música do João de Deus, enquanto que nossa Torcida era ouvida cantando “Fluminense, olê, olê olê” ao ritmo de Yellow Submarine.

Quando o jogo terminou, a alegria que senti era imensurável. E aumentou quando recebi o telefonema do craque Manfrini, nosso ídolo dos anos 70, e que do interior de São Paulo me deu os parabéns e com voz ainda nervosa disse que achava que não ia dar, mas que estava muito feliz com a conquista. Mal sabe ele que a minha alegria aumentou ainda mais ao poder falar com meu primeiro ídolo, que nos deu o título de 73 naquele Fla-Flu da chuva, aquele que mesmo quando saiu do Fluminense permaneceu ainda por muitos anos sendo titular do meu time de botão.

 

Vejo as entrevistas de fim de jogo, e quando o sono me vencia, voltei ao quarto do Enzo e sussurro em seu ouvido “Filho, você não vai se lembrar desse dia, mas vai saber que fomos campeões da Copa do Brasil!”, e eu vou te contar isso um dia.