Legião Tricolor - O resgate
Oct 07,2007 00:00 by autor78

                 “Vim pra torcer. Vim pra gritar. E por você a vida inteira eu vou cantar” 

                   Já nem reclamávamos mais.  O tempo passa. As coisas mudam. Paciência!

                 Aquelas festas maravilhosas que a torcida fazia nos jogos do Fluminense dos anos 70 e 80 estavam fadadas às memórias dos torcedores que as viveram. Ponto final. Simples assim. O mundo muda. Assim como não temos mais Grandes Sociedades no carnaval, assim como praticamente não se vêem mais distribuições de balas no dia de Cosme e Damião, assim como não se encontram mais televisores em preto e branco, aquelas festas simplesmente não existiam mais. Questão de se conformar e pronto.

                   Achávamos que era mero saudosismo ficar lembrando daquelas festas memoráveis, quando chegávamos mais cedo ao estádio para ver a entrada de cada uma das organizadas, que passavam com suas bandeiras enormes ao som das músicas que exaltavam o Fluminense, não a torcida.  Depois seguiam para os seus lugares, para fazerem as festas inesquecíveis que ajudaram a formar a paixão de tantos pequenos Tricolores, hoje adultos.

                  Tempos bons que não voltam mais.  

                 Mas não voltam mesmo?          

                A vida nos reserva surpresas, e algumas vezes elas são muito agradáveis.  

                Eis que surge a mudança. O retorno. O resgate. E a mudança e o resgate não poderiam ter nascido em outra torcida que não a do Fluminense, a torcida mais diferenciada do país. 

                O prazer de ir aos estádios estava em recesso. O “pay-per-view” reinava absoluto. Era muito mais confortável assistir aos jogos em casa ou em bares diversos que ofereciam os jogos ao vivo, com garçom trazendo cerveja e petiscos. Ir aos jogos? Para quê? O que víamos nas arquibancadas eram grupos mais preocupados em auto-exaltação e em brigar uns com os outros do que propriamente torcer. 

                Para que ir aos estádios então? 

                Isso parecia definitivo. Fato consumado.   

                De repente alguém me falou em Legião Tricolor.     

             “Legião Tricolor?”, eu pensei, “esse foi o nome de um artigo que publiquei na SempreFlu em março de 2004. Era referente a uma associação que fiz das mazelas do Flu com letras de músicas do extinto grupo Legião Urbana. Agora alguém me falava em “Legião Tricolor” e eu não tinha a menor idéia do que isso seria. 

                 Isso foi há bastante tempo atrás. Depois disso eu ouvi, vi e li muito sobre a Legião Tricolor. Com um orgulho enorme por ele ter nascido dentro da minha torcida, que eu volto, depois de longo e tenebroso inverno, a chamar de Melhor Torcida do Brasil. 

                 O artigo está no feminino (“a”), pois é como a galera Tricolor acostumou-se a chamar o grupo. Mas na verdade trata-se de um movimento. Não é uma torcida organizada. Quer ser um movimento. Mas é muito mais do que isso. É um resgate.  O grupo não tem a mínima pretensão em ser uma torcida organizada. A razão de ser do movimento é um “basta” ao marasmo que víamos na torcida Tricolor e na verdade em todas as outras.  Era uma ruptura com uma realidade que parecia consolidada. Brigas entre torcedores, até do mesmo clube, vaias sem sentido durante os jogos... era a inversão do papel do torcedor de arquibancada, que mais atrapalhava do que ajudava.

                  Ler o estatuto do Legião é um alento para um torcedor que busca tão somente torcer para o Fluminense. Ele parece ter sido criado pelo inconsciente coletivo de milhões de torcedores órfãos de uma torcida do Fluminense de que voltássemos a nos orgulhar.     

             O primeiro item diz que o fundamento básico é “cantar, incentivar e apoiar incansavelmente o Fluminense”. Perfeito! Os demais seguem na mesma linha. Na linha da ruptura, do “basta”. Não diria que é na linha do “Cansei”, porque cansar parece ser um verbo que o Legião não costuma conjugar. 

                 O item do estatuto de que mais gosto é “A Legião Tricolor não exalta o próprio nome. Quem entra em campo é o FFC”. Perfeito! 

                  E isso tem sido seguido à risca, pelo que tenho percebido à distância, abastecido que sou de informações vindas dos diversos fóruns Tricolores de que faço parte e também de meus sobrinhos, aqueles meninos cuja paixão Tricolor eu ajudei a fomentar anos atrás, que cresceram e agora são parte entusiasmada do movimento. 

                 E assim, irmãos Tricolores, ir ao Maracanã ver o Fluminense voltou a ser um grande prazer, antes mesmo da entrada do time em campo. Pessoas de todas as idades, mas principalmente os que viveram a torcida do Flu nos anos 70 e 80, têm me dado constantemente esse tipo de depoimento. Ir ao Maracanã para ver o Fluminense “eterno amor”, até mesmo como um programa de toda a família, voltou a ser um grande barato.

                  Melhor ainda é a compreensão e até adesão das organizadas tradicionais, que têm cantado junto e apoiado o movimento, mostrando a todos que é o Fluminense que está acima de tudo. Perfeito! 

                  Surgiram as músicas em profusão. O Youtube está recheado de vídeos emocionantes onde vemos os nossos torcedores cantando o “orgulho de ser Tricolor”.  O intervalo de jogo passou a ser uma grande (e pacífica) festa. Carnaval mesmo. A aquarela do Brasil nunca me soou tão bonita quanto a que tem sido cantada euforicamente, em ritmo quase que de micareta, e com “Fluzão, Fluzão” compondo o refrão.  Perfeito!

                  John Lennon e Paul McCartney nunca imaginaram que sua Yellow Submarine viria a ser cantada com outra letra, em português e com tamanha empolgação, expressando o amor de todos que são “Fluminense até morrer”.  Perfeito! 

                 Vemos agora, na imprensa em geral, um movimento mal disfarçado, orquestrado por pseudo-jornalistas, em geral comprometidos até o pescoço com outros interesses que não o jornalismo em si, para que o Maracanã passe a ser do Flamengo. 

                 Conseguiram a vitória contra o São Paulo. As emissoras exploraram ao máximo a performance da torcida deles nos jogos em que ela está sozinha no estádio.  

                No domingo de Fla-Flu, a coisa foi diferente. A torcida do Fluminense, em menor número, mostrou o que é ser uma torcida realmente apaixonada, vibrante e guerreira. Liderada pela Legião, a torcida do Fluminense mostrou ao Brasil que não precisa  de apoio da imprensa para se impor. Fomos vimos e vencemos. Sobramos nas arquibancadas. Cantamos mais alto. E vencemos! Parabéns, torcida Tricolor!

                  “Vim pra torcer, vim pra gritar. E por você a vida inteira eu vou cantar”.  

                 Perfeito!