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“Você não vai aos Rolling Stones?” – pequenas variações de perguntas como esta, proferidas em tons que denotam certo espanto, acerca deste mesmo tema, têm invadido meu canal auricular, nas últimas semanas, com uma freqüência impressionante. Estive em todos os shows da banda, no Rio de Janeiro, em anos anteriores, tanto no Maracanã quanto no Sambódromo – mas o show de amanhã, gratuito, na praia de Copacabana, cuja previsão de público gira em torno de dois milhões de pessoas, torna, a meu ver, a simples ida ao evento uma autêntica aventura, sem quaisquer garantias mínimas em termos de conforto e de segurança. Já não tenho apenas quinze primaveras, enfim, e a experiência de meu camarada Wecisley, o Gigante, que esteve no show do Lenny Kravitz, realizado no ano passado, no mesmo local, foi determinante para que eu tomasse decisão tão radical: “bicho, não consegui ver nada, muito mal o palco, e tava a maior muvuca, desde a saída do metrô até o local do show, teve gente da minha turma que se perdeu na multidão, aquilo tava uma loucura”. Se pro Gigante, que tem quase dois metros de altura, já foi esse perrengue todo, imaginem pra mim, coitado de mim, que mal passo de metro e meio... seria um massacre.

Cheguei, no entanto, a cogitar assistir ao show de um barco, que ficaria ancorado a cerca de duzentos metros do palco, um projeto bacana da Canoa da Serra, conceituada empresa de turismo rock’n’roll da região, cujo passeio incluiria, além de Mick Jagger & Cia. ao alcance dos ouvidos e principalmente dos olhos, um tour vespertino pela baía de Guanabara e adjacências, que acabou não vingando, enfim, uma pena, por falta de quorum. Mas estarei a postos, amanhã à noite, resignadamente, diante da TV, cumprindo com meu dever de roqueiro, muito embora, desta maneira, nem há o que discutir, né, a tal da satisfaction nunca é a mesma. Mas já tou com todos os preparativos nos trinques, vários casais amigos convidados, a geladeira apinhada de latinhas, o tira-gosto sendo encomendado, enfim, tudo a contento, acho que nada pode dar errado – a menos, é claro, que o Galvão Bueno seja escalado pra transmitir o evento, com comentários do Raul Quadros. Mas eu tou tranqüilo, isso tem pouca chance de acontecer.

Pois, na esteira da vinda da banda ao Brasil, para mais uma apresentação em terras tupiniquins, vem ocorrendo, nas últimas semanas, por todo canto, na mídia, verdadeira avalanche de informações sobre as tais pedras rolantes. Jornais, revistas, sites especializados, história da banda e reviews de shows, críticas boas e ruins ao novo álbum, aspectos da vida privada de seus integrantes, mesmo fofocas descabidas, The Rolling Stones pra lá, pra cá, pra todo lado. Nunca se falou tanto de Stones, por aqui, nem mesmo à época de sua estréia em palcos brasileiros, pouco mais de dez anos atrás. O próprio “Fantástico”, das noites de domingo da Rede Globo, rendeu-se ao fascínio dos velhinhos, que estão na estrada desde 1964, e encaixou uma série de reportagens semanais, em sua programação, mostrando um pouco das passagens anteriores dos membros da banda por nosso país, uma iniciativa bastante interessante, tanto do ponto de vista musical quanto jornalístico – para os que achavam que a relação da banda com o Brasil, e especialmente no que se refere a Mick Jagger, estava restrita apenas ao fato de que ele, Mick, tem um filho brasileiro, Lucas Maurice, com a apresentadora Luciana Gimenez, a verdade é que os Rolling Stones e o nosso Brasil varonil têm muito mais em comum do que poderíamos supor.

Curiosamente, no entanto, muitos dos fatos que pontuam esta aproximação brazuca, que dissecaremos a seguir, guardam estreita relação com nosso amado Fluminense Football Club.

A vinda de Mick Taylor, jovem guitarrista que havia substituído Brian Jones e fez parte da trupe rolante apenas por pequeno período – Ron Wood tomaria seu posto, não muito depois –, constitui o primeiro registro conhecido de atividade tricolor, digamos assim, entre os Stones. Taylor chegou ao Rio em janeiro de 1974, e viveu por aqui por alguns meses, como hóspede de amigos, tendo visitado também Manaus. Deste período, uma foto interessantíssima de Taylor, orgulhosamente envergando uma camisa do Fluzão, foi publicada nas páginas do Especial Rolling Stones da revista “Rock, A História e a Glória”, editada no ano seguinte, o que nos permite concluir, claro como água, que o músico tenha nutrido certa afinidade em relação ao Fluminense, durante o período em que esteve entre nós – ou teria posado com um pedaço de pano qualquer, é o óbvio ululante, não justo com nosso manto sagrado.

Mick Taylor

No entanto, como nos ensina Nélio Rodrigues, stonemaníaco de carteirinha e autor do livro “Os Rolling Stones no Brasil – do descobrimento à conquista” (Ampersand Editora, Rio de Janeiro, ano de 2000), nosso guia a partir de agora, a primeira pedra a ter rolado por nosso solo foi mesmo Mick Jagger, acompanhado de Marianne Faithful, então sua mulher, e o filho dela, Nicolas, no ínício do ano de 1968. Desembarcaram no Rio de Janeiro, estiveram no Guarujá, e deram uma esticada de alguns dias por Salvador, onde permaneceram praticamente incógnitos por pouco mais de uma semana. Os três voltariam ao Rio, contudo, naquele mesmo ano, na verdade dias antes da virada para 1969, e desta feita tendo a companhia de Keith Richards e sua mulher, Anita Pallenberg. Romperam o réveillon em terras cariocas, rumaram depois para São Paulo, onde ficaram por apenas algumas horas, até que chegassem ao destino planejado, Matão, cidade localizada no interior paulista. Estiveram também, segundo consta, por Araraquara, Ouro Preto e Belo Horizonte, praticamente sem serem reconhecidos.

O próximo capítulo dessa história surge em meados de 1975, em que executivos ligados aos Rolling Stones estiveram por aqui, examinando a infraestrutura de alguns locais em que supostamente seriam realizadas apresentações da banda, no ano seguinte – a tal “Tour Of The Americas”, no entanto, acabou não saindo do papel. O final daquele ano testemunharia a terceira vinda de Jagger ao Brasil, novamente a passeio, juntamente com Bianca, sua nova mulher, e Jade, a filha do casal, de quatro anos. Partiram somente em meados de janeiro, não sem antes conhecer o balneário de Búzios.

Charlie Watts, o discreto batera da banda, é o próximo a dar o ar da graça: desembarca, no Rio, no dia 11 de julho de 1976, trazendo, no pacote, sua mulher Shirley, sua filha Serafina e seu cunhado Stephen, permanecendo em solo carioca por cerca de dez dias. Uma semana depois, precisamente no dia 18, um domingo, a família Watts esteve no Maraca, para assistir a um Fla X Flu que terminou em 1x1, num jogo recheado de confusões e de expulsões. Não há registros de imagens da visita de Charlie Watts e sua trupe ao Maior do Mundo, naquela data, sequer informação que confirme sua escolha, em termos de torcida. Porém, vivíamos o auge da Máquina, o Fluminense era o time da moda, naquele momento, com fama internacional, e o bom e velho Charlie acabou não ficando mesmo imune ao nosso irresistível charme tricolor – poucos dias antes, fazendo compras em uma loja de material esportivo, Watts acabaria deixando vazar qual seria a sua preferência, para o clássico de domingo, ao presentear sua filha Serafina com uma camisa do Fluzão.

Foto 2
Charlie Watts compra a camisa do Fluzão numa loja de material esportivo de Copacabana

O ano de 1984, justamente o ano de nosso único título brasileiro oficialmente reconhecido como tal, constitui o período de maior atividade stoneana entre nós. Em novembro daquele ano, Mick Jagger chegou ao Rio acompanhado de sua nova mulher, Jerry Hall, e sua filha Elizabeth, de apenas dois meses de idade. Era sua quarta visita ao país, com a terceira mulher diferente a tiracolo, e pela primeira vez a trabalho: boa parte das filmagens de Running Out Of Luck, longametragem dirigido por Julien Temple, que serviria como divulgação do primeiro álbum de sua carreira solo, She’s The Boss, seriam realizadas em nossa Cidade Maravilhosa, com locações na Gafieira Elite, próxima ao Campo de Santana, no Aeroporto Santos Dumont, no estúdio cenográfico de Renato Aragão, e também na sede das Laranjeiras. Alguns trechos do filme foram pinçados, também, de tomadas feitas em um presídio, localizado do outro lado da poça, em Niterói. Foram realizados, ainda, pequenos takes nas cidades de Maricá, Angra dos Reis, Paraty e Barra do Piraí.

Mick Jaegger
Mick Jagger nas Laranjeiras, em dia de treino do Fluminense

...na terça-feira, as filmagens aconteceram no Fluminense Football Club, no bairro de Laranjeiras. O elegante Salão Nobre do clube, com seus enormes lustres de cristal, foi transformado num cassino. Mesas de bacará, carteado, roleta e máquinas de caça-níqueis compunham o cenário em que Mick, de summer branco, sapatos pretos e com os cabelos presos em rabo-de-cavalo, gravou a seqüência em que se destacava a música Lucky In Love. O trabalho de gravação transcorreu durante a noite e os poucos sócios atraídos pela movimentação de figurantes e técnicos não chegaram a perturbar seu tranqüilo desenrolar. Enquanto bisbilhotavam o Stone em ação, brincavam, dizendo que Jagger era o novo astro tricolor” (excerto extraído do livro do Nélio, “Os Rolling Stones no Brasil – do descobrimento à conquista”).

No dia seguinte, novo round de filmagens no salão nobre do Flu, e seqüências rodadas dentro de um caminhão frigorífico, que estava estacionado ao lado do campo das Laranjeiras.

Rolling Stones Laranjeiras
O líder dos Stones a caminho do salão nobre do clube, para a filmagem de um dos clipes musicais de Running Out Of Luck

Em 16 de dezembro daquele ano, o líder dos Rolling Stones marcou presença no Fla X Flu que decidiria o campeonato, o jogo da cabeçada mortal do carrasco Assis, que nos daria, àquela altura, o bi carioca. Acomodou-se na tribuna de honra do estádio e, no intervalo da partida, encontrou-se com o então presidente do Fluminense, o inesquecível Manoel Schwartz, que não perdeu a oportunidade: Schwartz presenteou Mick Jagger com um escudo do Fluzão, que o roqueiro imediatamente fez grudar na lapela de seu blazer preto. Em entrevista concedida ao repórter Luís Fernando Lima, da Rede Globo, em matéria que iria ao ar no “Fantástico” daquela noite, e que pode ser conferida através do vídeo abaixo

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Recomendável Banda Larga.

Mick declarou estar gostando bastante do jogo, cuja movimentação, segundo suas palavras, se assemelhava muito ao futebol jogado na Itália. No segundo tempo da partida, mesmo estando em companhia de Neusinha Brizola, rubro-negra fanática, Jagger passou aos poucos a torcer pelo Fluminense. No entanto, incomodado com o assédio constante de curiosos, e após mandar um clássico sanduba Geneal pra dentro, o rolling stone acabou não permanecendo até o final. Antes de retirar-se, no entanto, teceu alguns comentários sobre a partida, “o Flamengo tem bons valores, como Bebeto e Fillol, mas o Fluminense está melhor”. Do folclore da torcida tricolor, consta, ainda, que, na saída das tribunas, em meio à rampa de acesso, Mick Jagger teria sido interpelado por um torcedor do Fluzão, os braços abertos, um sorriso franco, amistoso, aos berros, “diz aê, tricolor, quanto é que tu acha que vai ser o jogo?”, ao que Mick teria retrucado, após checar o teor da mensagem com seu intérprete, “we’ll beat Flamengo, 1-0”, vai ser um a zero pra nós – além de pé-quente, êita, adivinho dos bons: pouco depois, Assis fuzilou Fillol, e a seqüência dessa história maravilhosa, enfim, todo mundo já conhece, mais um caneco bacaninha pra nossa coleção.

As semanas que Mick Jagger passou em território baiano, ainda em 1968, acabaram exercendo marcada influência, em suas composições – surgiu, daquele período específico, por exemplo, Sympathy For The Devil, um clássico do repertório da banda, lançada no final daquele ano, na Inglaterra, e alguns meses depois, por aqui, como faixa de abertura de Beggar’s Banquet, um dos seus álbuns mais conceituados, a que os próprios músicos ingleses se referem como um “samba forte com ritmo marcado”, nas palavras de Jagger, ou um “tipo de samba doido”, na visão de Keith Richards. Mas a canção, acredito eu, deve conter boa dose de ironia, ou ter sido feita às pressas, algo assim, ou então fizeram de propósito, pra disfarçar, não é possível – que afinidade com o tal do “devil”, que nada, estamos vendo que eles têm simpatia, mesmo, de verdade, é com o Fluzão...

Mick Jaegger
Mick no Maraca: "Fluminense? It's not rock'n'roll, but I like it!"

Mr. Watts, o nosso batera tricolor, visitou o Brasil uma outra vez, em 1992, em excursão com seu jazzístico Charlie Watts Quintet, para shows no Rio, e também em Curitiba, São Paulo e Belo Horizonte. O apelo de se tratar da primeira apresentação de um stone por aqui, ao vivo, acabou não sendo capaz de seduzir os fãs – a presença de público foi bastante reduzida, infelizmente, em todos os locais por onde o quinteto passou.

Três anos depois, no entanto, a sexta edição do Hollywood Rock marcaria, pela primeira vez no Brasil, juntos, ao vivo, em cima de um palco, empunhando seus instrumentos e microfones, a banda completa, finalmente, The Rolling Stones! A “Voodoo Lounge Tour” trazia a banda em grande forma, embalada pelo sucesso do álbum homônimo, lançado meses antes, com três apresentações em São Paulo e duas no Rio de Janeiro, tendo Darryl Jones comandando o baixo, na vaga deixada um ano antes por Bill Wyman. Wyman, aliás, mesmo sendo o único integrante da banda a jamais pisar o Brasil, à exceção óbvia de Brian Jones, homenageou nossa terra através de uma música incluída em um dos lados de um compacto de sua carreira solo, em 1981, intitulada “Rio de Janeiro”.

Mais três anos se passaram, e a banda retornou ao Brasil, na turnê de lançamento de seu álbum seguinte, Bridges To Babylon, para dois shows, um no Rio, outro em São Paulo.

Mas as histórias de visitas dos Rolling Stones a nosso planeta tupiniquim não param por aí: Ron Wood visitaria o Brasil por três vezes, no ano de 1996. Trouxe sua mulher Josephine pra assistir ao Carnaval, esteve em meados de maio em São Paulo, e, no final do ano, férias da família, rodou por bom tempo por Pernambuco e pela Bahia, tendo inclusive um encontro com Jimmy Page no cardápio – o lendário guitarrista do Led Zeppelin vivia, à época, em uma pequena cidade do litoral baiano. Dois anos depois, Wood retornaria à capital paulista, para expor quadros de sua autoria – Ron Wood é pintor nas horas vagas –, no Bar des Arts, que seriam depois leiloados.

Selvagens, excitantes, marginais, agitadores, cáusticos, diabólicos, e agora sabemos, também tricolores da gema, os Stones costumam trazer, mesmo, em suas bagagens, muita sorte ao Fluminense – estiveram por aqui nos anos de 1969, 1975, 1976, 1984, 1995, vamos lá, façam suas contas, somem dois mais dois e verão, esses malucos não são mesmo de brincadeira. Um alento, enfim, para este ano de 2006, que começou tão mal pro nosso lado – trata-se, afinal, de um ano stone, no calendário do Fluzão, sinal de que tudo deve melhorar, e a chance de faturarmos, que seja, pelo menos um titulozinho, é bem grande...

Portanto, você, meu amigo tricolor, minha amiga tricolora, que pretende assistir aos Rolling Stones amanhã, em Copacabana, leve sua bandeira, sua camisa, seu boné do Fluzão, use nossa combinação matadora de cores, dos pés à cabeça. Tente chegar o mais próximo possível do palco, e arrisque mandar, se puder, a plenos pulmões, um “NENSEE!” bem encaixado, na lata dos caras. Garanto que, após abrir largo sorriso de aprovação, Mick vai emendar Love Is Strong, hein, logo em seguida...

 

Pesquisa e Texto
Gustavo Valladares

Edição e Gráficos
Beto Meyer


Comunidade "Rolling Stones é Fluminense", no Orkut criada a partir desta matéria

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